Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL


     A proximidade do Natal nos transporta para dias especiais da nossa vida que ficaram guardados em um recanto da memória reservado a nossa infância.

 Agradeço a Deus por este pequeno compartimento onde as boas lembranças são preservadas, nele não há lugar para mágoas, nem decepções. Ele é um lugar sagrado. Inocente e puro. Nele está a criança que devemos buscar constantemente dentro de nós, é com este espírito natalino que devemos comemorar o aniversário Daquele que veio ao mundo por nós e não para si mesmo.

O feliz aniversariante que nos desperta para o amor ao próximo, o respeito e a solidariedade, é o Menino Jesus, que nasceu em uma manjedoura e foi visitado por reis.
 A proximidade de 25 de dezembro é um tempo mágico, os nossos sentidos parecem acordar de um sonho ruim, onde uma correria infernal nos leva para algum lugar onde não queríamos estar. Lá, onde habita a vaidade, o consumismo e o egoísmo fazendo de nós seus escravos.

Mas, eis que se aproxima o Natal e com ele novas esperanças, novas promessas. Vamos festejar com alegria Aquele que veio para nos salvar.
A visão começa a se encantar pelos enfeites natalinos. Luzinhas começam a piscar para nos lembrar que uma criança nasceu por nós e que ela quer comemorar seu aniversário em meio à paz.
O olfato já sonda o cardápio admirado pela visão, antes que o paladar se lance a ação. É hora de selecionar os pratos que irão compor a ceia. Muitas frutas enfeitarão a mesa, o tato discretamente confere tudo, alisa e apalpa. Visão, olfato, paladar e tato começam a se entender. A audição está relutante:
— Com este carro de som eu não vou.

 Não é à toa que este sentido se recusa. Ele tem bons motivos. Porém, é Natal. Os carros de som vão aderir ao tema e espalhar por aí o jingobel.
 Hoje a noite é bela... Como é bela! Ela promete e seduz.
A cada Natal as lembranças vêm até mim em veículos diferentes. Este ano chegou de ‘paladar’, com o sabor das castanhas cozidas e do pudim de laranja da minha querida tia Maria que já compartilha da mesa real.

 Na sequência, a visão. Esta chegou bem vestida, com muito brilho. Vislumbrou a mesa posta com fartura cercada por nossos familiares. Naquela mesa ainda não faltava ele... meu pai.

 O Papai Noel que já na minha infância era muito velho de barba branca, quase sempre se esquecia dos presentes, não era assíduo, às vezes não aparecia. Também não fazia muita falta, nunca o vimos realmente. Chegava sempre atrasado. Deixava presentes nos sapatinhos e partia sem ser visto. Isto muito me intrigava. A felicidade ficava mesmo por conta da convivência alegre e pacífica entre os familiares e amigos. O olfato circulava pela pequena cidade seguindo o aroma do porco no tacho e da leitoa assada que integravam as festividades natalinas.

Por fim, o tato descontraído entrava portando afetuosos abraços. Meu maior desejo é que o presente natal tenha a tranquilidade dos natais da minha infância.

 As visitas inesperadas são bem-vindas em noites de natal, desde que tragam nos corações a mensagem de Jesus: “Eu vos deixo a minha paz, Eu vos dou a minha paz”.

Emília Goulart - Membro do Grupo Experimental da AAL, da Cia dos blogueiros e da UBE.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

QUAL O PRESENTE?


                 Que presente daremos?
Está chegando o Natal, as preocupações vão adquirir uma leveza compatível com a data. É justo que assim seja, pois o que se anunciava a mais de 2000 anos era a vinda do Salvador. Os três REIS MAGOS não tiveram dúvidas, puseram-se a caminho para entregar ao Menino Redentor, os seus presentes.
Hoje aguardamos um presente ou vários presentes. Tudo depende do poder aquisitivo de cada um, muitos contarão apenas com as sobras de uma mesa farta. Outros aguardarão com ansiedade a última mega-sena do ano, outros ainda, estourarão os cartões de créditos procurando agradar a quem não quer ser agradado com presentes,  mas com  atitudes de respeito e carinho.
Há aqueles, ainda, que derramarão sua saúde em taças e brindarão com veneno a toda velocidade destruindo vidas.
Mas, e o presente? Que presente daremos? Será o presente mais importante que o futuro?
Para um filho, caso o pai tenha posses, dará a moto dos sonhos dele. Aquela dos seus pesadelos. Dará. É Natal,  fechou ótimos negócios e seu filho merece um bom presente. Para o outro, aquela BMW. Puxa vida, você queria tanto ter tido uma na sua juventude! Será um belo presente para ele e para você.    Mas estes são presentes para poucos. Aos nossos o que daremos? Não sei, espero que os meus se contentem com o meu amor e meus amigos com a minha amizade.

Lá na periferia alguém pensou nos mais humildes, convocou pessoas que foram às ruas e pediram brinquedos para as crianças, gesto magnânimo de amor ao próximo. Será ele candidato a algum cargo político? Falou... falou e se esqueceu de cumprimentar O aniversariante.
As crianças saíram satisfeitas com os presentes e com  a fala bonita daquele que vai lhes proporcionar escolas e vida digna.
Nossa,  me esqueci do principal. Talvez você também tenha se esquecido de agradecer ao aniversariante, mas Ele entende, afinal não foi Ele quem nos propiciou tudo isto?
Que presente daremos? Para filhos, netos, pais, avós, amigos e mais amigos, namorados, amantes, esposos... e esposas...pessoas queridas? As ruas estão iluminadas, pesadas sacolas transitam em mãos ocupadas demais para um cumprimento, o simples gesto de um aperto de mão. 
Será que agora podemos depositar nossos fardos no chão e num minuto de leveza cumprimentar e agradecer O aniversariante? E quem sabe pensar num bom presente para Ele? Eu já encontrei.
Darei  a Ele todas as boas ações que eu praticar neste ano e com isto espero ajudar a construir a Paz que  Ele tanto deseja ao mundo.   

Autora Emília Goulart  09/12/2011 –
Membro do Grupo Experimental da AAL ;
Membro da UBE e  da Cia dos blogueiros  


sábado, 3 de dezembro de 2011

RECONHECIMENTO LÁ FORA

Veja na coluna, página 5 do Jornal Empresas e Negócios a resenha com a divulgação do livro " 0 Diário de Vó Lina" de minha autoria.
 
Livros em Revista

José Antonio de Azevedo – Biblioteca 24X7 –
Saga romanceada de membro de família de retirantes
nordestinos instalados em São Paulo em meados
do século XX. Óbvias passagens de sofrimento,
solidariedade e total superação, são ingredientes
deste verdadeiro libelo à determinação humana.
Denso e verdadeiro.
Transição
Guimarães Rocha – Fausto Furlan (ilustr)
- Life – O autor que possue o recorde de lançar
15 livros num só dia, transformado em arauto da
ótima literatura pantaneira, homenageou a Academia
Sul-Mato-Grossense de Letras, reunindo pouco
mais de cinquenta de seus membros. Obra de fôlego, permeia
biografi as ilustres e os reverencia sem teor bajulatório, restando
tão somente o meritório. Justa e belíssima homenagem.
Grandezas da Literatura
Sul-Mato-Grossense
Jacqueline Aisennman – Design – Brasileira,
residente na Suíça, onde mantém livraria com livros
de autores brasileiros, lançou em terras tupiniquins,
em formato “pocket”, singelos micro contos. Apesar
de curtos são grandiosos em seu âmago e nos levam
a profundas refl exões. Instigante.
Lata de Conserva
Jordemo Zaneli JrSomos – Romance com
teor global. Acontecimentos em vários países que
se entrelaçam de forma misteriosamente circunstancial,
fazem do enredo, entremeado por citações
verdadeiras e boas facetas de pertinácia e recuperação,
uma leitura rápida, instrutiva e verdadeiramente
prazerosa. Para jovens e adultos.
A Garota Rockstar
Mhário Vicente – Integração – Em total
consonância com sua faixa etária, inquieto jovem
procura viver intensamente sua vida, para fugir de
um passado tormentoso. Consegue destaque social
e fi nanceiro. Em ares europeus, recebe uma triste
notícia que colocará em xeque, sua existência. Romance denso,
criado pela inteligente pena desse lídimo cidadão paranaense.
Para ler com vagar.
O Homem que Chorava
Carlos Gustavo Fiorini – Educador , pesquisador,
narra fatos verídicos baseados no Alto
Araguaia, onde originou-se episódio conhecido da
Guerrilha do Araguaia. Incansável defensor dos
Direitos Humanos em toda sua plenitude, retrata
de maneira romanceada, agruras de um povo que
sempre sente-se rodeado por incrustada corrupção.
Descasos e desrespeitos de toda sorte ao cidadão, fazem parte
desse verdadeiro alerta. Preocupante.
A Deusa Nua
Ramon Correa – Scortecci – O poeta com
muito humor, demonstra que cabeça vazia, tem
somente o titulo dessa obra. Destilando uma verve
as vezes crua outras extremamente delicadas, assim
as páginas vão transmitindo todo senso crítico social
do autor. Lê-se rapidamente.
Cabeça Vazia...Ofi cina de Poesia
Emilia GoulartSomosAutora também
nove vezes avó, estereotipou um personagem para
demonstrar o quão útil pode ser a doçura aplicada
com sabedoria , que na maior parte das vezes, vem
acompanhada pelo tempo. Verdadeira ode à velhice
e bom senso.
O Diário de Vó Lina
José Domingos de Brito (org) – Novera
– Bibliotecário compilou depoimentos de célebres
escritores sobre a arte de escrever, citando suas
biografi as resumidas. Há testemunhos que causarão
perplexidade ao leitor, pela sua genialidade e alguns
pela total falta de nexo, típica de almas diferenciadas.
Este é o primeiro volume de uma vasta e útil
coleção. Curiosa e instrutiva.
Por Que Escrevo?
Giselda Penteado Di Guglielmo – Poetisa e artista
plástica, ilustra muito bem suas páginas, revela em seus versos,
doce eloquência, cultura e boa vivência permitindo que
a vejamos quase despida em suas frases diáfanas. Poemas de

domingo, 6 de novembro de 2011

DA VOVÓ PARA OS NETOS

Hélio Consolaro*
Capa do livro


O  livro “Diário de Vó Lina” é digno de leitura para quem gosta de suspense e mistérios.  Se fosse transformado em filme ou novela, os espectadores roeriam as unhas defronte à tela.

Emília Goulart aplicou bem a teoria básica do romance, que é segurar o leitor, fazer com que não largue a leitura de forma alguma.

Confesso que ao meio do livro, desconfiei daquela família tão bem estruturada. “Esse José Antônio não me engana” – pensei várias vezes.

Apesar de eu ser um leitor um pouco mais experiente, essa adivinhação do final não ocorre em narrativa bem construída. Mas causar surpresa ao leitor no final é apenas uma das tantas teorias existentes.

Emília Goulart empobreceu o seu livro ao misturar arte com a política. Jorge Amado só passou a fazer sucesso depois de “Gabriela, Cravo e Canela”, quando deixou de fazer catequese comunista em seus livros.

Escrever artigos esbravejantes em blogs, xingar políticos nas redes sociais, escrever cartas às colunas de leitores do jornal é uma coisa, romance é para ser lido daqui a 100 anos. Além disso, o leitor pode gostar da história e detestar as posições políticas do autor de obra tão volumosa.

Se o autor quiser passar subliminarmente uma mensagem (e não tão declaradamente como faz Emília Goulart no livro), que defenda os valores universais da humanidade, válidas em qualquer época. Ou dê literariedade à crítica política, como fazia Machado de Assis, por exemplo.

Emília se mete a falar mal de políticos de uma forma chã, empírica. No livro “Diário de Vó Lina” há a Dora, empregada da casa há décadas. A narradora lamenta a pobreza da auxiliar doméstica, da doença do marido, culpa os políticos pela miséria daquela mulher. Se Dora está assim e trabalha naquela casa há tanto tempo, quem é o culpado de sua pobreza extrema? Quem lhe pagou salários miseráveis, ou seja, a própria família da narradora.

Ainda bem que há poucos escorregões desse tipo pelo livro. Não estou defendendo os políticos, desejo preservar a sua obra da efemeridade.

Carlos Drummond de Andrade carregava certa frustração por ter escrito apenas poemas, crônicas e contos. Nunca escreveu um romance. Este croniqueiro carrega também essa amargura. E a Emília Goulart partiu para um romance, persistiu, trabalhou, pesquisou. Deixou-me certa inveja.

“O Diário de Vó Lina” é para ser lido num fim de semana, adotado em escolas, depois convidar a autora para debater o livro com os alunos. Valorizar os escritores  de Araçatuba e região é incentivar a literatura caipira, aqui do interior. O livro tem 160 páginas, papel reciclável, pelo preço de R$ 25,00, editora Somos.


*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras e da União Brasileira de Escritores        

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A REAL DESVALORIZAÇÂO



Certo dia, após ter nos feito uma visita, ao sair minha cunhada viu na calçada perto do meu portão uma moeda de dez centavos.
Meu filho Eduardo tinha uns quatro anos, vendo-o por perto ela disse:
Olha aí, Dadinho, pegue-a.
Ele prontamente respondeu:
Quanto a senhora me paga?

FLAGRANTE DA VIDA REAL



Meu sogro costurava em sua pequena alfaiataria, quando o pedal da velha máquina se soltou.
Um vizinho se prontificou a consertá-lo, foi até a sua casa e logo retornou equipado para a solda.
Após limpar o lugar que deveria soldar, avisou:
Este pedal já foi soldado.
Meu sogro coçou a cabeça, fez alguns cálculos e respondeu:
Hoje, ele deve ser general. Reforme-o.

Emília Goulart Membro do Grupo Experimental

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SOLIDÃO



Não tenho falado com os pássaros, hoje notei esta ausência no meu rotineiro amanhecer.

Meu dia tem começado mais tarde, os pássaros já se fartaram com algumas migalhas colhidas fora do meu quintal. Abrigaram-se à sombra de uma árvore distante. Também, ando afastada do meu hábito de olhar para o céu. Uma telinha ridícula capturou as paisagens, ficou muito fácil um encontro com Deus, basta um clic e ele está ali, disponível para expulsar demônios, dar carros e mansões, atender nossos desejos, desde os mais profanos. A felicidade deste paraíso tem custo, é lógico!

Assim como não se reza quando a vida está calma, não olhamos para o céu quando ele está limpo, livre das nuvens negras.
Será que aquele céu que admiramos e tememos é o mesmo que irá nos abrigar?
Repousaremos nos flocos brancos de nuvens como se fossem almofadas, ou nos ocultaremos por trás das nuvens negras temendo o que ainda há de vir?

Não quero cair em nenhuma boca faladeira onde a língua chicoteia o céu sem piedade, não quero saber também como é o céu da boca do tubarão. Ele continuaria tubarão e eu viraria peixe miúdo. Seria engolida.

Depois de alguns tombos, adquire o hábito de olhar para o chão. Não levo nos lábios meu costumeiro sorriso. O meu bom dia deixo-o em casa, não o distribuo mais. Minha casa anda fechada a sete chaves. O café está caro, já não se convida os amigos para um cafézinho. O facebook aboliu este gostoso costume.
Vocês querem ser meus amigos? Ok. Preparem seus cafés, coloquem-no ao lado do computador e sirvam-se.

Os psicólogos adoram esta modalidade. O divã substituiu a mesa do cafézinho.
Lá em cima um pássaro solitário dá voltas e voltas. Tem medo de cair na banda larga ou se ferir nas pontiagudas torres. Ele procura um alvo e esse alvo sou eu.
Enrolo-me nos meus defeitos para me proteger. Sinto o peso do meu agasalho, não ouso voar, o céu está distante.

Elevo o meu olhar. Sobre qual nuvem Deus está sentado? Talvez em nenhuma, pois poderá correr o risco de ser um obstáculo no espaço aéreo e ser responsabilizado por algum acidente. Ando tão solitária quanto aquele urubu.

Continuo a fazer minhas caminhadas, olhos fixos no chão. Do meu lado caminham outros solitários. Não nos conhecemos, e daí? Talvez sejam alguns dos meus amigos virtuais. Todos acordam tarde, comprimem a vida.

Devo ou não avisá-los de que um urubu nos observa lá de cima.
Não! Não os conheço. Que se danem! Agora me sinto um avestruz, escondi a cabeça sob a plumagem.
Tapei os meus ouvidos. Não quero nem saber o que Deus tem para me dizer.

Volto para casa e leio uma estranha mensagem, alguém respondeu uma pergunta a meu respeito.
Como? Eu nem conheço a pessoa. Mas ela é minha amiga virtual. Desligo o computador um pouco mais irritada.

Amanhã, ao acordar, vou abrir a janela e ver se meu bem-te-vi ainda me aguarda. Ele traz alegria, me aproxima do céu. Olha para meu rosto com aquele jeitinho meigo e aguarda as migalhas de pão que sobejaram da mesa do café. Não vou abrir o facebook , vou visitar uma amiga real.

O céu, hoje, está limpo, os pássaros limparam o caminho para que eu conversasse com Deus. Ele me ouviu, me concedeu a graça que tanto busquei. Não me cobrou nada. Quando Lhe falei em custos, Ele apenas sorriu em forma de brisa mansa.

Emília Goulart é membro do Grupo experimental da AAL e Membro da Cia dos blogueiros.




quarta-feira, 29 de junho de 2011

LANÇAMENTO DO LIVRO " O DIÁRIO DE VÓ LINA"


Amigo(a)
Muito me honrará a sua presença no lançamento do livro
 O Diário de Vó Lina,
 de minha autoria.
 Quero repartir com você a imensa alegria que estou sentindo por conseguir realizar mais este sonho.
As palavras que eu escrevi foram para você, para mim também. Aceite-as e compartilhe-as comigo.
Muito obrigada

Emília Goulart

terça-feira, 12 de abril de 2011

RAIO X DA SALA




Na pequena sala de espera, pessoas se acotovelavam aguardando a vez para fazerem seus raios X.
Raios, nunca se viu tanta gente ali reunidas. Para o congestionamento havia uma explicação, “Temos dois aparelhos, um está quebrado, há dois dias aguardamos um raios X”.  
Tosse de um lado, espirros do outro. Minha agenda aberta sobre o nariz e a boca, foi o recurso profilático adaptado para aquele momento.  
Bem, os ouvidos captando as conversas nebulosas, que circulam nesses espaços, algumas chegavam até eles em monossílabos cochichados, outras em alto e bom som, para que todos ficassem mesmo sabendo as fofocas explícitas, pipocavam de vez em quando.
Mas foi para essa conversa que tirei o chapéu, ou melhor, empunhei minha arma e disparei a anotar em meu profilático recurso, a agenda.
— Gripe, pé quebrado, braço ou pneumonia?
— Olha cara, cheguei lá com o pé quebrado, não leram o encaminhamento e fizeram raios X do tórax, saí de lá com diagnóstico de pneumonia. Agüentei a dor e desconforto do pé, afinal a pneu era mais grave. Graças a Deus disse minha mãe, não fosse pelo pé você poderia ter morrido.
— Não era para tanto! Ou era?
— Sei lá, fico pensando... quem terá saído dali com o pé engessado? Dias depois recebi um telefonema me pedindo que comparecesse a unidade de saúde para fazer o raios X do pé. Avisei que tinha tomado outras providências fora do serviço público e que meu pé estava quase bom, porém, os remédios para a pneumonia haviam provocado uma alergia. Mandaram-me passar lá e pegar um remédio para combater a alergia. Passei.
— E agora o que foi que aconteceu com sua mão cara?
— O cara que me atendeu para entregar o remédio era o mesmo que fez o raios X do meu tórax..


Emilia Goulart
Membro do Grupo Experimental da AAL
Membro da Cia dos Blogueiros

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

VIVI OU OUVI?



Naquele tempo, Papai Noel entrava pelas chaminés, Mula-sem-cabeça era real, e o Saci vivia ali pelo campo se escondendo em moitas de bambu. Quando o vento soprava forte era fácil ouvir o chamado da sua flauta. Isso era um sinal de perigo, porém, aquele assobio que vinha das moitas de bambu atraia as crianças para suas aventuras e aqueles ouvintes atentos se juntavam armados de estilingues, bolinhas de argila e embornais.         Armados, saiam aos pares, na caça ao Saci. Eram personagens das próprias histórias.

Hoje, ao revolver as cinzas do bambuzal, oculta na mata cinzenta da memória, encontrei esta história como a ouvi; ou vivi.
Na Rua Rui Barbosa, de uma pequena cidade do interior de São Paulo, nasci.                    No final da rua as casas e as vendas davam espaço para as chácaras, que ficaram conhecidas pelos nomes dos proprietários: Chácara do Zezico, do Messias, do Dito Carreiro e outras.

                  Quando nasci encontrei uma família formada por meus pais, meus avos e meus tios, que há muito tempo me aguardavam. Era grande a harmonia e eu vivia feliz e paparicada por todos.
                  Porém, minha mãe vivia uma grande busca, sua fé andava abalada, uma vez por semana me pegava pela mão e saía em busca de uma luz, que nunca trazia para casa. Íamos e voltávamos em plena escuridão, às vezes a lua nos socorria e por pena iluminava nosso caminho. Mas era bom encontrar outras crianças, brincávamos muito, enquanto minha mãe ouvia falar de coisas de outro mundo, ou que o mundo não acaba aqui, e tentava acreditar.

                  Certa noite, ao voltarmos para casa, como de costume, e tendo a lua como companheira, demos a volta como sempre fazíamos para entrar pela porta da cozinha, onde meu avô nos esperava sentado perto do fogão de lenha na companhia dos meus tios.Meu pai sempre estava viajando.

                  Ao aproximarmos da porta minha mãe conteve seu impulso habitual e segurou forte meu braço, ao mesmo tempo tapou minha boca me obrigando ao silêncio. Eu estava muito preocupada com o vento que soprava do bambuzal, o som da flauta do Saci me fazia arrepiar. O tempo que ficamos ali se mostrou bem maior, todos os sons verdadeiros e imaginários foram ouvidos, minha mãe estava grudada na porta e demonstrava ouvir  alguma coisa muito séria, minha pequenina mão sofria espremida pela dela, mas me sentia segura, dali o Saci não me atrairia. Mesmo se ele, pessoalmente, tentasse me levar para o centro da moita onde arrancaria de mim uma perna e ainda tentasse colocar em minha cabeça aquela touca vermelha, ridícula, eu estaria protegida pela minha mãe.

                   Por fim, exigindo silêncio, pé ante pé, ela foi me puxando até chegarmos à rua. Lá,   iluminada pelo clarão da lua, a beleza do seu rosto banhado por lágrimas, contrastando com o olhar duro, frio, me fez sentir mais medo, e esquecer o Saci. Em seguida, soltou minha mão e acelerou os passos deixando-me para trás. Desprotegida, voltei a ouvir o assobio da flauta que vinha de outra moita, era da chácara dos Messias, ali se não bastasse ser mais um esconderijo de Sacis, ainda tinha morcegos que dormiam durante o dia e à noite, por qualquer motivo, davam vôos rasantes e assustadores. Por sorte a lua já mostrava as paredes rosadas da casa da Amélia, nossa prima.

                 Já na porta, minha mãe conteve a respiração ofegante, e olhou-me como quem pede aprovação, lembro-me bem que apavorada concordei, sem saber com o que concordava. Ela bateu palmas, e lá de dentro perguntaram:
— Quem é?
— Sou eu, Amélia.    

                Reconhecida pela voz, Amélia logo abriu a porta, e antes que nos mandasse entrar minha mãe foi contando tudo. Tudo que na sua versão acabava de acontecer.
               Amélia conhecia bem minha mãe, soube logo ao vê-la que o assunto era sério, e fechou a porta para prestar mais atenção.    
       
               — Ao chegar à casa ouvi meu sogro, a quem eu quero como um pai e meus cunhados que amo como filhos, dizer coisas horríveis a meu respeito, falavam entre outras coisas em tomar minha filha, e que sou uma louca.
              Minha mãe estava mesmo nervosa e tudo que dizia, afirmava que eu também ouvira. Eu apenas ia confirmando não sei se por inocência, pressa ou piedade. Na verdade eu queria era entrar logo, pois podia ouvir as risadas dos meus primos, pelo jeito meu avô estava contando suas histórias.

               Quando acabou, e deixou-a falar, Amélia disse:
               — Impossível! O compadre está aqui há muito tempo contando suas histórias, e os teus cunhados com ele.
               Minha mãe pediu desculpas e meu avô a desculpou, mas disse:
               — Quando procuramos Deus em toda parte, é porque Ele não está em nós, aí corremos o risco de encontrar o Diabo.
                Nunca me esqueci do que meu avô disse naquela noite, portanto, acredito que vivi.

                
                                                                                        Emília Goulart
Membro do Grupo Experimental  da Academia Araçatubense de Letras

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

REFLEXÃO

                                     

 Há algum tempo, quando o exemplar diário da Folha da Região chegava a minha casa eu era a primeira pessoa a ler. Fazia-o com prazer e curiosidade.
Hoje, não mais.
Sinto-me desgastada com as notícias que me desgostam. Não é culpa do jornal. Ele é informativo, e esta é a função de um matutino diário.

Porém, tenho preferido ser desinformada. Da televisão recrutei os desenhos, e dos jornais a página cultural. Isto me basta, para que ocupar meu já cansado cérebro e meu preguiçoso coração, com notícias que me desagradam.
Não sou separatista e para mim tudo que existe em forma de gente, são pessoas, seres humanos, que se respeitosos, merecem respeito.

Lado a lado duas notícias publicadas no exemplar do dia 11/01/2011 me chocaram, provocando em mim reflexões.
“Deputados vão receber R$100mil em um mês” e “Estado vai fazer cirurgias gratuitas para transexuais”.
  A segunda notícia transportou-me para os hospitais sem leitos, remédios e médicos, para atender a população em suas necessidades mais urgentes.

As pessoas estão morrendo de todas as enfermidades, mas principalmente de abandono.
Toda área da saúde está em decadência, a Secretária da Saúde está usando os transexuais como a Secretaria da Educação usou os negros, para se promoverem. Alguém notou melhora na educação? Educação não é para todos indistintamente, independente de raça, cor, religião ou situação financeira? Portanto, a meu ver, foram usados. Assim como agora faz a Secretaria da Saúde.

A outra notícia, relativa aos R$100mil que deputados gastarão provavelmente fora do país, com viagens e mimos para esposas e amantes, que na calada da noite adquiriram direitos iguais.
 Outros preparam eleitores, distribuindo mentiras em doações.

Pessoas morrendo de gripe, a dengue maltratando a população, corredores de hospitais sem nenhuma higiene, servindo de enfermarias e até de salas de cirurgias. Enfim, a saúde está em decadência total e a Secretaria de Estado da Saúde usa os transexuais para se promover.

Quando a população em geral for atendida, essa discriminação será desnecessária.
È para votar. Votamos.

Esta é a democracia que nos concede o direito de escolher.  Portanto, depois de muito pensar, me pergunto: não vale mais um anarquismo gratuito que uma democracia custeada com o dinheiro público?
Ora... Ora! Quanto mais escolhemos mais a situação degringola.

Emília Goulart

Texto publicado no Jornal Folha da Região em 19/01/2011




sábado, 8 de janeiro de 2011

A ÚLTIMA PASSARELA


 

   Caminhou pelo quarto quase vazio, algumas peças de roupas amontoadas na cadeira, outras esparramadas pelo chão. O casal acabara de comprar o guarda-roupa. Madeira pura, ela garantiu. Tentou com esse argumento conseguir mais alguns trocados. A moça olhou para ela, depois para o noivo que estava ocupado em descobrir um defeito que reforçasse a pechincha.
              — É madeira de lei, pode examinar bem.
O noivo, percebendo a intenção, reforçou:
 — Mesmo que fosse de ouro, nem um tostão  a mais.
               Sem outras palavras a vendedora estendeu a mão. As manchas senis explodiram em gargalhadas.                         
Ao saírem a moça sussurrou:
— Parkinson
— Não, abstinência alcoólica.
Restavam ainda a cama, uma mesinha redonda, a cadeira quebrada e o espelho, nada de valor, nem mesmo as possíveis imagens que por ventura  aquele espelho pudesse  ter guardado. Olhou compadecida para os velhos trastes, enquanto que, no espelho, algumas  imagens relâmpago despediram-se dela para sempre.
Sentou-se na cama, continuando a olhar seu reflexo, desolada com a aparência, mergulhou num amontoado de fotos, separou algumas, uma linda moça usando maiô, uma capa e um cetro, tudo indicando coroação de “miss”; numa outra foto, um casamento foi separado violentamente e os restos não sabia porque estavam reunidos em um envelope. Sucatas de paixões, tempo perdido, vícios arrastados por tudo que valeu à pena, era agora penalizada.
Chacoalhou a velha colcha, jogando as lembranças no chão empoeirado do quarto, com esforço, usou a ponta dos pés para pisotear os destroços. Guardou com carinho apenas a foto da criança que foi levada pela mão de uma mulher.
— Será que ainda vive?
Não queria acordar os vivos nem ressuscitar os mortos. Não valeria à pena.
 Amarrado na ponta do lenço, tudo que restou dos seus tesouros: de alguns ela recebera flores, de outros perfumes, seu preço mais alto eram  jóias que, levadas a penhores sustentariam sua velhice.
Desatou o nó forte, com ajuda da ponta da tesoura, não sem  antes recorrer aos dentes, mas os  cacos que teimavam em doer, agora, foram cuspidos longe. Riu ao se ver mais banguela no espelho, e pensar que de nada adiantava chorar. Examinou a quinquilharia que restava, soltou um palavrão, depois de um gemido:
— Velhice duradoura e cínica, ficou para me assistir até o fim.
Um oficial de justiça bate forte na porta. Ela ajeita como pode o cabelo, passa um batom nos lábios e se prepara para fazer o que sempre fez tão bem. Olha para si e pensa pedir  um mês para ficar por ali. Não precisará o juiz saber e ela o fará ir às nuvens. Não tem dúvidas quanto aos  estragos causados pelo tempo, mas  tentará, nada mais tem a perder. Sabe que seu poder de sedução está tão falido quanto sua situação financeira, mesmo assim vai tentar.
 Dá um passo decidida, o moço bate outra vez. Refreia seu impulso, e analisa melhor a situação: Não deve explorar, uma semana já estará bom. Dá outro passo, quase cai. Tem que manter a altivez, ou ele pode achar que ela não vale nem três dias.
— Droga, não valho mesmo! O espelho confirma sua decadência.  O oficial insiste; ela, raivosa grita:
— Já vou, seu filho de uma...
 Não, ela não abriria mão do único bem que lhe restara, relutava em perder a educação, se bem que às vezes tinha vontade de mandar todos para o inferno.
— A senhora precisa assinar aqui, ao lado da assinatura da juíza.
 Era a desocupação do imóvel penhorado, para quitar dívidas. — ela assina ao lado do nome da menina. Agora sabia onde andava a menina do retrato, mas não iria acordar os vivos. O oficial  ignorou suas lagrimas, e sequer notou seu sorriso de felicidade.
Apoiada  na sua bengala,  arrastou uma pequena valise para a rua, junto ao peito sob a faixa de miss, levava a foto de sua filhinha e a certeza de que fizera o melhor.
  Foi assim, feliz, que desfilou  na última passarela.


Emília Goulart

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

VAMOS BATER PAPO





Quando os avós envelheciam depressa demais, eles tinham uma necessidade de nos contar suas histórias, muitas vezes se escondiam por detrás de personagens fictícios. O diálogo não podia ser aberto, porque tanto o mal como o bom exemplo seriam imputados a eles, não havia a televisão para carregar a culpa. Hoje como a medicina nos garante mais tempo de vida, queremos ter exclusividade sobre o tempo excedente e sabe o que fazemos? Sepultamos nosso passado. A desculpa mais usada é de que os jovens não querem ouvir ou não se interessam.

                  Saudosismo, este sentimento que nos leva ao passado, pode muito bem ser compartilhado com os jovens. Eu não quero deixar para meus netos um passado sem histórias, divido com eles meu passado e meu presente, só não falo de doenças, porque descobri que nem os próprios velhos se agüentam quando o assunto fica pálido. Lição de moral, como ensinou-me um mestre, deve ficar no final da fábula. Mas lembrar sempre é bom: Doença e sexo depois dos cinqüenta é assunto para ser conversado com médicos, poupemos os netos.

O diálogo baseado no respeito é o que convida os netos a nos ouvir.

Sou uma avó de agora, com uma vida bastante ativa, repleta de afazeres, mas é a união da minha família  o alicerce que me sustenta, por enquanto não me deixaram falando sozinha. Procuro deixar bem claro que o respeito deve estar acima de qualquer assunto ou brincadeira, apesar de que muitas vezes também me empolgo e uma palavra atrevida me escapa, me policio e peço desculpas imediatamente.  A falta de posicionamento dos mais velhos que deveria ser natural e mutuo nas famílias e nas escolas, tem dado origem a violência.

Bons tempos, sim bons tempos aquele que os mais jovens chamavam de senhor ou senhora seus mestres, e que ouviam as histórias de vida dos avós. Mas, foram esses mesmos avós e mestres os responsáveis por essa anarquia, quando não mais se permitiram serem tratados assim e não souberam dar limites de respeito. Gostamos dos tratamentos que nos aproximam mas sejamos francos e limitadores quando nos desrespeitam. 

Sinto um prazer inenarrável em conversar com meus netos, são oito, entre seis e vinte  anos. De cada um guardo um momento especial, porém, foi com o Victor, o segundo da escala, que aprendi que conversar era muito bom, com apenas dois anos ele arrastava uma cadeira e me convidava a bater papo, e era assim que o fazia. “Vem véia vamos bater papo.”

Um dia ao presenciar esta cena, uma velha amiga repreendeu-me:

                   — Como você deixa seu neto te tratar assim ? Velha, onde já se viu, que falta de respeito!
                  Perguntei-me por alguns instantes, o que ela entendia por respeito? Foi o próprio: Victor quem deu a resposta e sem ofendê-la:

    Não é velha, é a minha véia, tia.

                   Foi bom eu ter sido lerda para dar a resposta. Sempre estou aprendendo com meus netos.

                                                                      Emília  Goulart
                                                           



UM POUCO DE MIM



Este mim que fugiu da mimada filha única, para aprender a repartir o pão com uma ninhada de primos filhos de uma tia. A tia mais querida do mundo.

Foi com ela que aprendi o muito que sei de educar e amar. Foi com ela também que aprendi a embalar os sonhos e só desembalá-los quando o momento for oportuno. Foi assim que ocultei meu grande sonho de ser escritora.

Tornei-me costureira muito cedo e foi nessa honrosa profissão, que já na adolescência dei meus primeiros pontos. Lembro-me bem de ter costurado uma perda com pontos de saudade, depois de muitos furos nos dedos fui trabalhar como secretária em um consultório, o médico era competente e muito mal humorado.
 
Descobri logo que poderia costurar aquele mau humor com pontos de ternura, porém, esses pontos foram virando um nó tão mal compreendido que me obrigou a procurar um novo emprego. Ele ficou tão ofendido que rasgou o pano da amizade e por pouco não o jogou na lama.

Continuei com minhas aulas de costura, aprendi que tem o ponto e a linha certa para cada pano. Para aquele pano eu havia soltado linha.

Apreendi a lição e continuei costurando os panos. Ao aprender o ponto certo do amor casei, mas tive o cuidado de costurá-lo com linha apropriada, pois o casamento é um tecido muito frágil, é quase um papel de seda, rasga-se com muita facilidade, não envolvam crianças com este pano, sem ter a certeza de que ele foi bem reforçado com os pontos do amor.

É uma árdua tarefa, muitas vezes basta um ponto errado para por a perder um belo trabalho.
Eu, com as experiências da vida, mais os ensinamentos da minha tia, que me avisou: leve no enxoval uma boa quantidade de paciência, uma grande dose de respeito e linha, muita linha para dar os pontos necessários de amor. Cheguei aqui, o tecido continua intacto apesar de ter embalado cinco crianças e agasalhar atualmente vinte aves aninhadas sob nossas asas.

O sonho que embalado guardei, estou pacientemente desembalando. Surge aqui e acolá algumas crônicas, poesias e contos assinados por mim, aquela “mim” que escapou dos mimos pelas linhas tortas escritas por Deus, espera em breve estar assinando romances.
 
Emília Goulart