Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

VIVI OU OUVI?



Naquele tempo, Papai Noel entrava pelas chaminés, Mula-sem-cabeça era real, e o Saci vivia ali pelo campo se escondendo em moitas de bambu. Quando o vento soprava forte era fácil ouvir o chamado da sua flauta. Isso era um sinal de perigo, porém, aquele assobio que vinha das moitas de bambu atraia as crianças para suas aventuras e aqueles ouvintes atentos se juntavam armados de estilingues, bolinhas de argila e embornais.         Armados, saiam aos pares, na caça ao Saci. Eram personagens das próprias histórias.

Hoje, ao revolver as cinzas do bambuzal, oculta na mata cinzenta da memória, encontrei esta história como a ouvi; ou vivi.
Na Rua Rui Barbosa, de uma pequena cidade do interior de São Paulo, nasci.                    No final da rua as casas e as vendas davam espaço para as chácaras, que ficaram conhecidas pelos nomes dos proprietários: Chácara do Zezico, do Messias, do Dito Carreiro e outras.

                  Quando nasci encontrei uma família formada por meus pais, meus avos e meus tios, que há muito tempo me aguardavam. Era grande a harmonia e eu vivia feliz e paparicada por todos.
                  Porém, minha mãe vivia uma grande busca, sua fé andava abalada, uma vez por semana me pegava pela mão e saía em busca de uma luz, que nunca trazia para casa. Íamos e voltávamos em plena escuridão, às vezes a lua nos socorria e por pena iluminava nosso caminho. Mas era bom encontrar outras crianças, brincávamos muito, enquanto minha mãe ouvia falar de coisas de outro mundo, ou que o mundo não acaba aqui, e tentava acreditar.

                  Certa noite, ao voltarmos para casa, como de costume, e tendo a lua como companheira, demos a volta como sempre fazíamos para entrar pela porta da cozinha, onde meu avô nos esperava sentado perto do fogão de lenha na companhia dos meus tios.Meu pai sempre estava viajando.

                  Ao aproximarmos da porta minha mãe conteve seu impulso habitual e segurou forte meu braço, ao mesmo tempo tapou minha boca me obrigando ao silêncio. Eu estava muito preocupada com o vento que soprava do bambuzal, o som da flauta do Saci me fazia arrepiar. O tempo que ficamos ali se mostrou bem maior, todos os sons verdadeiros e imaginários foram ouvidos, minha mãe estava grudada na porta e demonstrava ouvir  alguma coisa muito séria, minha pequenina mão sofria espremida pela dela, mas me sentia segura, dali o Saci não me atrairia. Mesmo se ele, pessoalmente, tentasse me levar para o centro da moita onde arrancaria de mim uma perna e ainda tentasse colocar em minha cabeça aquela touca vermelha, ridícula, eu estaria protegida pela minha mãe.

                   Por fim, exigindo silêncio, pé ante pé, ela foi me puxando até chegarmos à rua. Lá,   iluminada pelo clarão da lua, a beleza do seu rosto banhado por lágrimas, contrastando com o olhar duro, frio, me fez sentir mais medo, e esquecer o Saci. Em seguida, soltou minha mão e acelerou os passos deixando-me para trás. Desprotegida, voltei a ouvir o assobio da flauta que vinha de outra moita, era da chácara dos Messias, ali se não bastasse ser mais um esconderijo de Sacis, ainda tinha morcegos que dormiam durante o dia e à noite, por qualquer motivo, davam vôos rasantes e assustadores. Por sorte a lua já mostrava as paredes rosadas da casa da Amélia, nossa prima.

                 Já na porta, minha mãe conteve a respiração ofegante, e olhou-me como quem pede aprovação, lembro-me bem que apavorada concordei, sem saber com o que concordava. Ela bateu palmas, e lá de dentro perguntaram:
— Quem é?
— Sou eu, Amélia.    

                Reconhecida pela voz, Amélia logo abriu a porta, e antes que nos mandasse entrar minha mãe foi contando tudo. Tudo que na sua versão acabava de acontecer.
               Amélia conhecia bem minha mãe, soube logo ao vê-la que o assunto era sério, e fechou a porta para prestar mais atenção.    
       
               — Ao chegar à casa ouvi meu sogro, a quem eu quero como um pai e meus cunhados que amo como filhos, dizer coisas horríveis a meu respeito, falavam entre outras coisas em tomar minha filha, e que sou uma louca.
              Minha mãe estava mesmo nervosa e tudo que dizia, afirmava que eu também ouvira. Eu apenas ia confirmando não sei se por inocência, pressa ou piedade. Na verdade eu queria era entrar logo, pois podia ouvir as risadas dos meus primos, pelo jeito meu avô estava contando suas histórias.

               Quando acabou, e deixou-a falar, Amélia disse:
               — Impossível! O compadre está aqui há muito tempo contando suas histórias, e os teus cunhados com ele.
               Minha mãe pediu desculpas e meu avô a desculpou, mas disse:
               — Quando procuramos Deus em toda parte, é porque Ele não está em nós, aí corremos o risco de encontrar o Diabo.
                Nunca me esqueci do que meu avô disse naquela noite, portanto, acredito que vivi.

                
                                                                                        Emília Goulart
Membro do Grupo Experimental  da Academia Araçatubense de Letras

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

REFLEXÃO

                                     

 Há algum tempo, quando o exemplar diário da Folha da Região chegava a minha casa eu era a primeira pessoa a ler. Fazia-o com prazer e curiosidade.
Hoje, não mais.
Sinto-me desgastada com as notícias que me desgostam. Não é culpa do jornal. Ele é informativo, e esta é a função de um matutino diário.

Porém, tenho preferido ser desinformada. Da televisão recrutei os desenhos, e dos jornais a página cultural. Isto me basta, para que ocupar meu já cansado cérebro e meu preguiçoso coração, com notícias que me desagradam.
Não sou separatista e para mim tudo que existe em forma de gente, são pessoas, seres humanos, que se respeitosos, merecem respeito.

Lado a lado duas notícias publicadas no exemplar do dia 11/01/2011 me chocaram, provocando em mim reflexões.
“Deputados vão receber R$100mil em um mês” e “Estado vai fazer cirurgias gratuitas para transexuais”.
  A segunda notícia transportou-me para os hospitais sem leitos, remédios e médicos, para atender a população em suas necessidades mais urgentes.

As pessoas estão morrendo de todas as enfermidades, mas principalmente de abandono.
Toda área da saúde está em decadência, a Secretária da Saúde está usando os transexuais como a Secretaria da Educação usou os negros, para se promoverem. Alguém notou melhora na educação? Educação não é para todos indistintamente, independente de raça, cor, religião ou situação financeira? Portanto, a meu ver, foram usados. Assim como agora faz a Secretaria da Saúde.

A outra notícia, relativa aos R$100mil que deputados gastarão provavelmente fora do país, com viagens e mimos para esposas e amantes, que na calada da noite adquiriram direitos iguais.
 Outros preparam eleitores, distribuindo mentiras em doações.

Pessoas morrendo de gripe, a dengue maltratando a população, corredores de hospitais sem nenhuma higiene, servindo de enfermarias e até de salas de cirurgias. Enfim, a saúde está em decadência total e a Secretaria de Estado da Saúde usa os transexuais para se promover.

Quando a população em geral for atendida, essa discriminação será desnecessária.
È para votar. Votamos.

Esta é a democracia que nos concede o direito de escolher.  Portanto, depois de muito pensar, me pergunto: não vale mais um anarquismo gratuito que uma democracia custeada com o dinheiro público?
Ora... Ora! Quanto mais escolhemos mais a situação degringola.

Emília Goulart

Texto publicado no Jornal Folha da Região em 19/01/2011




sábado, 8 de janeiro de 2011

A ÚLTIMA PASSARELA


 

   Caminhou pelo quarto quase vazio, algumas peças de roupas amontoadas na cadeira, outras esparramadas pelo chão. O casal acabara de comprar o guarda-roupa. Madeira pura, ela garantiu. Tentou com esse argumento conseguir mais alguns trocados. A moça olhou para ela, depois para o noivo que estava ocupado em descobrir um defeito que reforçasse a pechincha.
              — É madeira de lei, pode examinar bem.
O noivo, percebendo a intenção, reforçou:
 — Mesmo que fosse de ouro, nem um tostão  a mais.
               Sem outras palavras a vendedora estendeu a mão. As manchas senis explodiram em gargalhadas.                         
Ao saírem a moça sussurrou:
— Parkinson
— Não, abstinência alcoólica.
Restavam ainda a cama, uma mesinha redonda, a cadeira quebrada e o espelho, nada de valor, nem mesmo as possíveis imagens que por ventura  aquele espelho pudesse  ter guardado. Olhou compadecida para os velhos trastes, enquanto que, no espelho, algumas  imagens relâmpago despediram-se dela para sempre.
Sentou-se na cama, continuando a olhar seu reflexo, desolada com a aparência, mergulhou num amontoado de fotos, separou algumas, uma linda moça usando maiô, uma capa e um cetro, tudo indicando coroação de “miss”; numa outra foto, um casamento foi separado violentamente e os restos não sabia porque estavam reunidos em um envelope. Sucatas de paixões, tempo perdido, vícios arrastados por tudo que valeu à pena, era agora penalizada.
Chacoalhou a velha colcha, jogando as lembranças no chão empoeirado do quarto, com esforço, usou a ponta dos pés para pisotear os destroços. Guardou com carinho apenas a foto da criança que foi levada pela mão de uma mulher.
— Será que ainda vive?
Não queria acordar os vivos nem ressuscitar os mortos. Não valeria à pena.
 Amarrado na ponta do lenço, tudo que restou dos seus tesouros: de alguns ela recebera flores, de outros perfumes, seu preço mais alto eram  jóias que, levadas a penhores sustentariam sua velhice.
Desatou o nó forte, com ajuda da ponta da tesoura, não sem  antes recorrer aos dentes, mas os  cacos que teimavam em doer, agora, foram cuspidos longe. Riu ao se ver mais banguela no espelho, e pensar que de nada adiantava chorar. Examinou a quinquilharia que restava, soltou um palavrão, depois de um gemido:
— Velhice duradoura e cínica, ficou para me assistir até o fim.
Um oficial de justiça bate forte na porta. Ela ajeita como pode o cabelo, passa um batom nos lábios e se prepara para fazer o que sempre fez tão bem. Olha para si e pensa pedir  um mês para ficar por ali. Não precisará o juiz saber e ela o fará ir às nuvens. Não tem dúvidas quanto aos  estragos causados pelo tempo, mas  tentará, nada mais tem a perder. Sabe que seu poder de sedução está tão falido quanto sua situação financeira, mesmo assim vai tentar.
 Dá um passo decidida, o moço bate outra vez. Refreia seu impulso, e analisa melhor a situação: Não deve explorar, uma semana já estará bom. Dá outro passo, quase cai. Tem que manter a altivez, ou ele pode achar que ela não vale nem três dias.
— Droga, não valho mesmo! O espelho confirma sua decadência.  O oficial insiste; ela, raivosa grita:
— Já vou, seu filho de uma...
 Não, ela não abriria mão do único bem que lhe restara, relutava em perder a educação, se bem que às vezes tinha vontade de mandar todos para o inferno.
— A senhora precisa assinar aqui, ao lado da assinatura da juíza.
 Era a desocupação do imóvel penhorado, para quitar dívidas. — ela assina ao lado do nome da menina. Agora sabia onde andava a menina do retrato, mas não iria acordar os vivos. O oficial  ignorou suas lagrimas, e sequer notou seu sorriso de felicidade.
Apoiada  na sua bengala,  arrastou uma pequena valise para a rua, junto ao peito sob a faixa de miss, levava a foto de sua filhinha e a certeza de que fizera o melhor.
  Foi assim, feliz, que desfilou  na última passarela.


Emília Goulart

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

VAMOS BATER PAPO





Quando os avós envelheciam depressa demais, eles tinham uma necessidade de nos contar suas histórias, muitas vezes se escondiam por detrás de personagens fictícios. O diálogo não podia ser aberto, porque tanto o mal como o bom exemplo seriam imputados a eles, não havia a televisão para carregar a culpa. Hoje como a medicina nos garante mais tempo de vida, queremos ter exclusividade sobre o tempo excedente e sabe o que fazemos? Sepultamos nosso passado. A desculpa mais usada é de que os jovens não querem ouvir ou não se interessam.

                  Saudosismo, este sentimento que nos leva ao passado, pode muito bem ser compartilhado com os jovens. Eu não quero deixar para meus netos um passado sem histórias, divido com eles meu passado e meu presente, só não falo de doenças, porque descobri que nem os próprios velhos se agüentam quando o assunto fica pálido. Lição de moral, como ensinou-me um mestre, deve ficar no final da fábula. Mas lembrar sempre é bom: Doença e sexo depois dos cinqüenta é assunto para ser conversado com médicos, poupemos os netos.

O diálogo baseado no respeito é o que convida os netos a nos ouvir.

Sou uma avó de agora, com uma vida bastante ativa, repleta de afazeres, mas é a união da minha família  o alicerce que me sustenta, por enquanto não me deixaram falando sozinha. Procuro deixar bem claro que o respeito deve estar acima de qualquer assunto ou brincadeira, apesar de que muitas vezes também me empolgo e uma palavra atrevida me escapa, me policio e peço desculpas imediatamente.  A falta de posicionamento dos mais velhos que deveria ser natural e mutuo nas famílias e nas escolas, tem dado origem a violência.

Bons tempos, sim bons tempos aquele que os mais jovens chamavam de senhor ou senhora seus mestres, e que ouviam as histórias de vida dos avós. Mas, foram esses mesmos avós e mestres os responsáveis por essa anarquia, quando não mais se permitiram serem tratados assim e não souberam dar limites de respeito. Gostamos dos tratamentos que nos aproximam mas sejamos francos e limitadores quando nos desrespeitam. 

Sinto um prazer inenarrável em conversar com meus netos, são oito, entre seis e vinte  anos. De cada um guardo um momento especial, porém, foi com o Victor, o segundo da escala, que aprendi que conversar era muito bom, com apenas dois anos ele arrastava uma cadeira e me convidava a bater papo, e era assim que o fazia. “Vem véia vamos bater papo.”

Um dia ao presenciar esta cena, uma velha amiga repreendeu-me:

                   — Como você deixa seu neto te tratar assim ? Velha, onde já se viu, que falta de respeito!
                  Perguntei-me por alguns instantes, o que ela entendia por respeito? Foi o próprio: Victor quem deu a resposta e sem ofendê-la:

    Não é velha, é a minha véia, tia.

                   Foi bom eu ter sido lerda para dar a resposta. Sempre estou aprendendo com meus netos.

                                                                      Emília  Goulart
                                                           



UM POUCO DE MIM



Este mim que fugiu da mimada filha única, para aprender a repartir o pão com uma ninhada de primos filhos de uma tia. A tia mais querida do mundo.

Foi com ela que aprendi o muito que sei de educar e amar. Foi com ela também que aprendi a embalar os sonhos e só desembalá-los quando o momento for oportuno. Foi assim que ocultei meu grande sonho de ser escritora.

Tornei-me costureira muito cedo e foi nessa honrosa profissão, que já na adolescência dei meus primeiros pontos. Lembro-me bem de ter costurado uma perda com pontos de saudade, depois de muitos furos nos dedos fui trabalhar como secretária em um consultório, o médico era competente e muito mal humorado.
 
Descobri logo que poderia costurar aquele mau humor com pontos de ternura, porém, esses pontos foram virando um nó tão mal compreendido que me obrigou a procurar um novo emprego. Ele ficou tão ofendido que rasgou o pano da amizade e por pouco não o jogou na lama.

Continuei com minhas aulas de costura, aprendi que tem o ponto e a linha certa para cada pano. Para aquele pano eu havia soltado linha.

Apreendi a lição e continuei costurando os panos. Ao aprender o ponto certo do amor casei, mas tive o cuidado de costurá-lo com linha apropriada, pois o casamento é um tecido muito frágil, é quase um papel de seda, rasga-se com muita facilidade, não envolvam crianças com este pano, sem ter a certeza de que ele foi bem reforçado com os pontos do amor.

É uma árdua tarefa, muitas vezes basta um ponto errado para por a perder um belo trabalho.
Eu, com as experiências da vida, mais os ensinamentos da minha tia, que me avisou: leve no enxoval uma boa quantidade de paciência, uma grande dose de respeito e linha, muita linha para dar os pontos necessários de amor. Cheguei aqui, o tecido continua intacto apesar de ter embalado cinco crianças e agasalhar atualmente vinte aves aninhadas sob nossas asas.

O sonho que embalado guardei, estou pacientemente desembalando. Surge aqui e acolá algumas crônicas, poesias e contos assinados por mim, aquela “mim” que escapou dos mimos pelas linhas tortas escritas por Deus, espera em breve estar assinando romances.
 
Emília Goulart