Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

VAMOS BATER PAPO





Quando os avós envelheciam depressa demais, eles tinham uma necessidade de nos contar suas histórias, muitas vezes se escondiam por detrás de personagens fictícios. O diálogo não podia ser aberto, porque tanto o mal como o bom exemplo seriam imputados a eles, não havia a televisão para carregar a culpa. Hoje como a medicina nos garante mais tempo de vida, queremos ter exclusividade sobre o tempo excedente e sabe o que fazemos? Sepultamos nosso passado. A desculpa mais usada é de que os jovens não querem ouvir ou não se interessam.

                  Saudosismo, este sentimento que nos leva ao passado, pode muito bem ser compartilhado com os jovens. Eu não quero deixar para meus netos um passado sem histórias, divido com eles meu passado e meu presente, só não falo de doenças, porque descobri que nem os próprios velhos se agüentam quando o assunto fica pálido. Lição de moral, como ensinou-me um mestre, deve ficar no final da fábula. Mas lembrar sempre é bom: Doença e sexo depois dos cinqüenta é assunto para ser conversado com médicos, poupemos os netos.

O diálogo baseado no respeito é o que convida os netos a nos ouvir.

Sou uma avó de agora, com uma vida bastante ativa, repleta de afazeres, mas é a união da minha família  o alicerce que me sustenta, por enquanto não me deixaram falando sozinha. Procuro deixar bem claro que o respeito deve estar acima de qualquer assunto ou brincadeira, apesar de que muitas vezes também me empolgo e uma palavra atrevida me escapa, me policio e peço desculpas imediatamente.  A falta de posicionamento dos mais velhos que deveria ser natural e mutuo nas famílias e nas escolas, tem dado origem a violência.

Bons tempos, sim bons tempos aquele que os mais jovens chamavam de senhor ou senhora seus mestres, e que ouviam as histórias de vida dos avós. Mas, foram esses mesmos avós e mestres os responsáveis por essa anarquia, quando não mais se permitiram serem tratados assim e não souberam dar limites de respeito. Gostamos dos tratamentos que nos aproximam mas sejamos francos e limitadores quando nos desrespeitam. 

Sinto um prazer inenarrável em conversar com meus netos, são oito, entre seis e vinte  anos. De cada um guardo um momento especial, porém, foi com o Victor, o segundo da escala, que aprendi que conversar era muito bom, com apenas dois anos ele arrastava uma cadeira e me convidava a bater papo, e era assim que o fazia. “Vem véia vamos bater papo.”

Um dia ao presenciar esta cena, uma velha amiga repreendeu-me:

                   — Como você deixa seu neto te tratar assim ? Velha, onde já se viu, que falta de respeito!
                  Perguntei-me por alguns instantes, o que ela entendia por respeito? Foi o próprio: Victor quem deu a resposta e sem ofendê-la:

    Não é velha, é a minha véia, tia.

                   Foi bom eu ter sido lerda para dar a resposta. Sempre estou aprendendo com meus netos.

                                                                      Emília  Goulart
                                                           



2 comentários:

  1. Olha eu aqui, outra vez!
    Adorei esse texto. Como é gostoso ter um avô, uma avó para alegrar a nossa infância.
    Você acertou na mosca. Avó é pra isso mesmo, contar história, fazer doces e deixar a molecada dormir com os pés sujos.
    Abração!

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  2. ...pois dos lerdos será o reino do céu.

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