Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

terça-feira, 17 de abril de 2012

IDOSO NÃO É PALAVRÃO

                                   
Ser idoso é carregar da juventude muitos erros e acertos sem se queixar do peso, é valsar com a idade sem pisar na dama.

A velhice é uma bruxa que voa por aí, a procura de um idoso que parou de sonhar e nele pousa para transformá-lo em velho. Daqueles que puxam uma carroça de mau humor.
 A longevidade de uma vida é um prêmio concedido àqueles que, com arte, conseguiram viver os bons e os maus momentos. A cartola pode estar cheia de lenços negros e a mágica consiste em colorir antes de retirá-los. As lembranças ruins precisam ser refinadas na memória e isso leva um bom tempo. Muitos jovens perdem cedo a vida sem aprender dela a grande mágica. 
   
             Ser idoso é aceitar, sem rusgas, as rugas que o tempo acumula. Ensinar aos jovens que andar sobre o fio do tempo, sem rede de proteção, não é sabedoria. O idoso sabe que o ponto de equilíbrio, entre os bons e maus momentos, é o bom humor. Por isso, ao olhar-se no espelho e ver sua embalagem amassada, ele sorri com a certeza de que o produto não foi danificado.
Jamais tente aprender com um velho qualquer coisa. Ele é o senhor do mau humor e da ingratidão.

Poucos assumem serem velhos. Recusam-se a aceitar a semelhança com o outro, quer seja nas atitudes ou na aparência.


Não se assustem com a meia idade, pois a cada ano ela avança um pouco mais.
Se as mesmas histórias narradas por um idoso te irritarem, atente, pois está se tornando um velho. Com o tempo, evitará reuniões familiares e sociais, pois a proximidade provoca comparações. Velho não suporta espelho. Quer esquecer a própria idade.

 Depois, com a alma enrugada, vai desfazendo os laços com os quais a vida o presenteou: sua família e seus amigos. Isola-se. Cuidado, velho! Espelho é o conta-gotas do tempo, e você, o frasco que só se completa com a morte. Idoso, não é palavrão, é medalha que devemos carregar de peito aberto.

            Deixe vir as rugas da face, mas não permita que elas invadam a alma, por que  dessas as plásticas não cuidam.

Eu queria fazer uma crônica sobre o jovem: belo, viçoso, com uma longa estrada a percorrer, juntando tudo de bom que a vida tem. O tempo é seu amigo, mas se dele não cuida, ele foge. A juventude passa por nós com a velocidade de um furacão e a velhice caminha ao nosso lado com passos de tartaruga. Quanto a mim quero somar anos a minha idade. Quero ser idosa.

            Meu caminhar nunca é solitário, ando com as lembranças do passado e convivo em paz com meu dia  a dia.

           Busco nas ruas figuras do cotidiano, para compor meus textos e sempre encontro os personagens que procuro.
           Chamou-me a atenção, um senhor com um “topetinho de Neymar”.  Com uma bola nos pés, solto na sua idade avançada, caminhando ao lado de um jovem. O jovem apressado controlava os passos. O senhor não tinha pressa, voltava a bola como gostaria de voltar o tempo. Na vida quantos passos importantes não foram dados... quantos beijos técnicos foram trocados. E o amor verdadeiro como foi tratado?

          Certamente, aquele senhor idoso, teria tanto para dizer ao jovem. Mas este, apressado, tinha um acordo com o relógio e hora marcada com a pressa. De repente, algumas palavras apressadas romperam o silêncio.

          — Vô, apresse o passo!

          — Apresse tu! Por que eu estou voltando.

          Sim, há uma hora na vida que o idoso volta para apagar os incêndios que propagou ou para colher o que semeou.

           Os velhos não voltam. Estacionam à margem da vida, sem um sorriso que os acaricie.



Emilia Goulart é escritora, membro da UBE (União Brasileira dos Escritores), da Cia dos blogueiros
 e do Grupo Experimental AAL (Academia Araçatubense de Letras)



4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Não removi nenhum comentário, se o fiz foi por engano,às vezes acontece me perdoem.
      Emília

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  2. O idoso, conforme estou aprendendo, é aquele que tem juventude acumulada.
    Ainda estou aprendendo. Espero não sair da escola.

    Rita Lavoyer

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  3. Bravo, bravíssimo!!! Amei, minha querida...e vou te confessar: aprendi muito lendo sua crônica. Obrigada por isso! Sou sua leitora agora e isso me enternece.

    Beijo grande no seu coração corajoso e sincero.

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