Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

CANTO MORNO


Depois de um período de euforia que precede ao lançamento de mais um livro, e desta vez com o apoio do Programa de Fomento à Cultura da Prefeitura Municipal de Araçatuba, recolhi-me ao canto morno de onde posso acompanhar os primeiros passos de alguns leitores por este Descaminho dos Anjos.
Há um canto morno? O leitor deve se perguntar. Se há não foi revelado no livro, nele os cantos são escuros e frios.
Em algum lugar dentro de nós existe um canto morno revestido de lembranças almofadadas. Raquel, a protagonista, encontrou este canto no fundo sombrio de um corredor estranho.
Para mim, o canto morno é o lugar ideal para chocar meus pensamentos, voltar ao velho bule de café que se mantém aquecido sobre o fogão de lenha, longe da pressão da garrafa térmica. Ou me deitar na rede que ainda balança amarrada em duas mangueiras.
Nas minhas raízes,  onde fico a cavoucar, me vejo observando meu avô sentado no toco de madeira recolhendo a baba que escorre num canto da boca, enquanto valoriza a cria da vaquinha Boneca.
Mas às vezes meu canto morno é tão acolhedor que nele a preguiça encontra guarida. Vou deixá-la assim, enquanto recarrego as armas e preparo novos soldados. Outra batalha está começando. Quando o cantinho morno começa esquentar é hora de debruçar sobre o pelego e me agarrar nas crinas do baio.
Nossa! A baio(ca)neta em punho! Agora estou pronta para galopar e forçar meus soldados a abandonarem as trincheiras.
Por terras onde nunca andei posso voar. Mergulhar em labirintos insondáveis do universo humano onde ações desumanas transgridem o bem. Vou dar vidas, dirigir destinos, ser a criadora absoluta de vilões e protagonistas.
Quando cansada estou de brincar de Deus vou para meu canto morno, me encontrar com personagens abandonados, recriar casarões demolidos, restaurar castelos de areia e jogar paciência com a intolerância que nutre os preconceitos.
Quando na minha cama, o sono que busco para renovar a energia que se consumiu com os afazeres do dia, tem pouco tempo para mim. Então  passo o resto da noite esperando habeas corpus para o meu sono que se alonga naquela brincadeira de Pega Ladrão.
O dia me surpreende com fatos novos, por mais que eu elabore a minha agenda, não passo de um personagem criado e manipulado pelo Divino. Vou indo. Para onde? Não sei. Não criei meu personagem e Aquele que me criou ainda não revelou o final.
E daí? Alguns personagens vão morrer? Perguntou-me minha querida amiga e leitora Tina.
Sim, o Homem lá de cima disse: “do pó vieste, ao pó tornarás”. Não gosto de contrariá-Lo Mesmo porque a morte nem sempre é antagonista.
Posso tudo, nas páginas que escrevo. Altero o final na última hora. Aprendi com o grande mestre Fiódor Dostoiévski que um bom romance tem crime e castigo. Com outro, o grande Liev Tolstoí que a paz só faz sentido se houver guerra. Não sei o rumo desta nova história que me propus a criar. Sei apenas que não vou permitir que o vento a leve sem que a vida e a morte se completem.
Emilia Goulart  é Membro da Cia dos blogueiros, da UBE e Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.