Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

SOU CAIPIRA SIM, SENHOR




Emília Goulart*

Créditos da imagem: Biblioteca do Google Image






Atualmente, quando ouço a palavra rancho, me bate uma velha saudade de vida na roça. Meus parentes dão risadas e dizem que eu sinto esta saudade porque nada era obrigação, tudo para mim era divertimento. Que com eles é diferente.
 Cheguei a pedir a uma tia, ótima colhedora de algodão, que  aproveitava as boas safras para faturar uma boa grana, que ela me levasse qualquer dia nesta colheita onde todos ganhavam dinheiro.

Com o consentimento de minha mãe, que nunca me proibira de fazer alguma coisa, falava-me dos perigos, mas consentia que eu explorasse minha curiosidade, que era bem diferente  das curiosidades atuais.

Madrugada, e minha tia já havia preparado minha marmita de boia fria. Partimos felizes, a lavoura de algodão era perto e caminhávamos entre o gado, ela sabia dialogar com os animais...

 - Oi, boi, afaste-se porque esta menina é preciosidade da minha irmã.

Saudade da minha tia Elpídia, Erpídia para os pais e irmãos, caipiras com raízes bem fincadas na roça.

Hoje sinto até uma agonia quando se referem a ranchos para falar de mansões à beira do rio. Os ranchos que conheci eram outros.

Rancho era uma casinha de caboclo, pau a pique, chão de terra e cobertura de taboa. Um jirau, um banco, uma cama, tudo armado sobre forquilhas, onde até um colchão de palhas embalava os sonhos. Todo rancho de caboclo tem uma viola pendurada, mas no rancho do meu tio, quem o acompanhava nas noites enluaradas era um cavaquinho. O rancho ficava bem no meio de uma lavoura de arroz.
Pela manhã, nos finais de semana, quando minha mãe selava o cavalo e dizia:
- Vamos lá no rancho do Antônio.
 Eu sabia que cavalgaríamos uns seis quilômetros por uma trilha dentro da mata. “Engraçado que minha mãe só tenha me falado de lobo mau, quando viemos morar em Araçatuba e eu tinha 14 anos”!
Bem, deixa voltar para o rancho, que se eu seguir nesta trilha o lobo vai matar a fome. 

Quando chegávamos ao rancho, meu tio nos esperava com uma codorna na mão, e com a outra tirava do bolso um estilingue e se exibia orgulhoso. Voltava ao arrozal e dele saía com uma abobrinha para que minha mãe fizesse com os ovos mexidos, ovos que minha avó mandava para o filho.

Minha mãe tinha um carinho muito grande por seus irmãos,  depois de casada, ela conseguiu estudar um pouco, mas meus tios não tiveram esta oportunidade. Lá longe, naquele rancho, ele passava a semana a  espera de minha mãe ou de outro irmão que ia em direção às outras lavouras.

— Cê vai pra’quelas bandas? Antão-se, leva essa matula pro Antonho - pedia minha avó. – (e pedido de minha avó era uma ordem) - vê lá se tá tudo bem? 
Ranchos como esse são precursores de algumas histórias penduradas no passado de muitas pessoas, como os espantalhos que, espalhados pelas lavouras, afastavam os pardais sem prejudicar o meio ambiente. Ah... Os caipiras eram conscientes em preservar a natureza. 

Ranchos, eu me pergunto? Com luz elétrica, água encanada, Jet ski nos jardins esperando que se ligue o motor que assustará os peixes e espantará as codornas. Cervejinha gelada e caipirinha no copo, tudo para “aliviar as tensões da vida moderna”. Os caipiras não precisavam disso: era só tirar o chapéu e olhar para o céu. Se via uma nuvem, agradecia a Deus, se não via, agradecia também porque caipira é sábio.
Quem perdeu a palestra que o professor Luiz Mozzambani Neto proferiu durante a 5ª Jornada Literária de Araçatuba não sabe o que perdeu. O professor deve ter estudado muito para falar deste assunto. E embora o caipira circule em todos os cantos do país, ainda há muito preconceito com as nossas raízes.
*Emília Goulart dos Santos é escritora de Araçatuba, acadêmica da Academia Araçatubense de Letras.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

UM URSO À MINHA MESA


                     

 


 Ali existe um muro. Quando digo isso, as pessoas riem, zombam de mim.

— É! De fato, ali existe um muro — repetem.

 Elas têm razão, evito discutir, elas falam daquele que quase todas as casas têm. O muro do fundo, que as separam dos vizinhos, de concreto. 

O que elas não entendem é que além daquele tem outro. Não sei mais o que faço, aquele muro me atrai. Estou sempre sobre o muro de concreto observando-o. Apesar de invisível, ele também é concreto.

Outro dia, estando sozinho, fui provar a mim mesmo que o muro invisível existe. Saltei para o outro lado e lá estava ele, toquei-o, queria ter a certeza de que não era uma alucinação. Cheguei mesmo a tentar, de um modo súbito, arrancar um pedacinho de concreto e logo senti uma pressão, os dois muros foram se juntando, comprimindo, concreto e abstrato se fundiram. Senti que eles se abraçavam e eu ali, imóvel entre aquele abraço, me senti filho acolhido, protegido, porém, proteção em exagero sufoca. Abaixei para me livrar daquele abraço antes de ser transformado em fragmentos. Meu maior receio no momento foi ser transformado em um terceiro muro. Enquanto os muros, no mais absoluto silêncio, trocavam insultos. Ninguém os podia ouvir. Eu sim!

Mesmo sentindo as minhas pernas trêmulas, saltei novamente o muro. Estava livre, nunca meu quintal me pareceu tão grande. Naquele momento jurei que não tornaria a provocar aquela situação. Afinal, o que era aquilo? Nunca ouvi falar de algo igual, qualquer semelhança com fantasmas estava fora de cogitação. Fantasmas são intocáveis, eu o toquei. Foi isso, eu toquei aquele muro, eu senti a frieza mórbida daquela estrutura invisível oculta por trás de um muro sólido.

 Fui bem discreto, apesar do medo que me afligia, imediatamente percebi que aquele era um segredo entre mim e os muros.   Revelar estava fora dos planos, seria, sem dúvida, tomado por louco, quem sabe até me internariam em um sanatório.

Todavia, conviver com aquilo seria difícil, não é o tipo de coisa que dá para ignorar, teria que enfrentar a situação e voltar lá, querendo ou não, aqueles muros faziam parte da minha vida, afinal nasci naquela casa. Desvendar aquele mistério era um desafio que eu precisava enfrentar.

Depois de algumas horas entre subidas e descidas do muro de concreto, observando detalhadamente o muro invisível, que me convidava a entrar por uma porta estranha de sorriso enigmático, não se abrindo totalmente, apenas o suficiente para que um lenço branco se mostrasse. Tive certeza, precisava voltar, mas faltava-me coragem. Decidi:

Convidei meu irmão, relutante a princípio, desconfiando da historia, mas em solidariedade ao irmão mais novo, acabou aceitando o convite. Difícil mesmo para ele era entender como e quando surgiu aquele outro muro, longe da vista dos moradores e tão próximos. Eu já passara pela fase das indagações e não lhe dava ouvidos.

Tornei a saltar o muro, desta vez acompanhado pelo meu irmão. Acompanhado não é bem o termo certo, na verdade ele foi sequestrado por mim, pois usei segredos que só irmãos conhecem para chantageá-lo e forçá-lo a embarcar naquela aventura. Pressenti o perigo ao ver Diogo, meu irmão, tatear a procura do muro invisível.  Tão poucas vezes estive ali e já era o dono da situação. Guardava dele um dos seus segredos, se tocado ele reagiria.

 Tarde demais para avisar, já havíamos penetrado o território invisível daquele mistério que nos convidava, arrastando-nos.  Nesse momento, duas mãos surgiram, estavam geladas e trêmulas, nada de estranho para mim, pois dentro daqueles muros revestidos de cimento, não poderia ser diferente. As mãos começaram a nos afagar e logo nos vimos diante de nossa mãe que estava desaparecida. Mesmo feliz com o reencontro não foi possível conter o comentário uníssono:

—Isto quer dizer que ficaremos aqui muitos anos.

—A eternidade? — perguntou Diogo.

O incrédulo, que até bem poucos minutos não se manifestara.

— O que é a eternidade? — balbuciou o muro.

Segurei forte, afastando de mim as mãos que me acariciavam:

— Agora quero saber, que historia é essa?  Vai me deixar passar por louco, ou vai nos explicar?—Ela soltou minhas mãos, senti-me aliviado:

—Assim como vocês, estou aqui por curiosidade. Desde que seu pai levantou este muro eu tentava entender o porquê, e acabei aqui dentro. Talvez ele me tivesse tirado, mas, como logo depois ele morreu. A certeza de que me libertaria desapareceu. A única coisa que eu sei foi revelada pelo próprio muro, que a me ver mergulhada em grande tristeza disse:

— Um outro tem que entrar para que você saia. Vou me tornar visível para o seu filho mais jovem e assim atraí-lo.

O muro, tomando a palavra disse:

— Não contava que entrassem os dois. Agora ficarão, para que ela saia. Muros invisíveis cumprem o que prometem.

Tranquilizou-nos a promessa de que ela olharia como estava a casa e voltaria.

Por algum tempo ficamos imóveis, depois começamos a nos desesperar.  A cada minuto a certeza de que ela não voltaria nos apavorava, e toda vez que tentávamos sair, luzes cadentes como estrelas iluminavam o interior do muro possibilitando-nos enxergarmos várias portas sem que nenhuma delas nos indicasse a saída.

Nunca fui assombrado por portas que se abrem e fecham sem nenhum auxilio, vi muitas, mas estas eram especiais, um vai e vem sem fim, e quando batiam o eco se tornava insuportável e o muro invisível, que se tornou o nosso casulo, estremecia.

Por um bom tempo paramos as tentativas, ficamos inertes, qualquer investida para tentarmos escapar dali era um suplício. Estávamos enjaulados, ou melhor, emparedados.

Diogo balançava a cabeça de um lado para outro, e foi assim que ganhou todas as características de urso. Do meu irmão restavam  a voz e o firme propósito de sair dali.

Tentamos juntos, muitas vezes, a cada tentativa meu irmão se tornava mais urso. Eu fui o responsável por aquela metamorfose, ver meu irmão se transformando foi assustador. Comecei a temer a hora em que o urso cansado e com fome me devorasse.

As luzes voltaram a piscar, saltei para fora pela primeira porta que surgiu, mas entre aquele vai e vem fiquei preso por alguns segundos ou minutos, o tempo já não importa quando a eternidade se prenuncia assustadora. Senti o urso rasgando minha roupa, suas garras ferindo minha pele na tentativa de me segurar, seguir comigo ou me devorar, pois eu era o único alimento à vista.

Alguém me viu debatendo e socorreu-me, puxando.

—O que você estava fazendo do lado do vizinho?

Calei-me, há coisas que não adianta contar, eles jamais vão acreditar que o Diogo está dentro do muro invisível e que agora é um urso. Falei com mamãe que precisávamos tirar o Diogo de lá. Ela disse que não acha isso possível, pois papai morreu sem revelar o segredo.

Eu sei como entrar e como sair do muro, mas, como tirar um urso de lá eu não sei.

Mamãe arrumou uma coleira enorme, me entregou e disse:

— Não temos escolha, boa sorte.

Tirá-lo do muro até que não foi difícil, mas como explicar um urso que senta e come conosco à mesa?

 

 

Emília Goulart é membro da UBE e Academia Araçatubense de Letras

 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Devagar se vai longe

                       
                                                 Devagar se vai longe


D. Canô foi longe, eu também quero ir. Sigo Nilo Amaro pela cantiga afora: “ leva eu minha sodade... quando chego na ladeira tenho medo de cair”.
Nesta hora a gente quer ficar, a não ser que uma dor maior que a saudade nos faça desistir da vida. Se eu continuar viva até onde chegou a Dona Canô eu levarei muita saudade. Porque saudade é como erva daninha, brota todo dia no coração da gente.
A vida é muito bela, desprezá-la como coisa comum que pode acabar a qualquer momento não é sabedoria. Canô tinha respeito pela vida e soube cuidar da sua muito bem.
 Minha vida eu trago como pipa na linha, deixo-a flutuar entre nuvens, recolho-a se o tempo muda e percebo chuva, não a expondo sob-raios e trovoadas. Não sei se temos o controle da vida nas mãos, por isso não embarco na velocidade do tempo. Quero ir é devagar, devagarinho...
 Sei que o tempo é voraz,  consome dias, meses e anos com tanta rapidez que não nos damos conta e quando notamos estamos idosos.
A vida é uma locomotiva que passa por nós engatando vagões de saudade. Qualquer dia ela pode nos recolher.
Os amigos, alguns flutuantes e outros ficantes. Não este ficar ocasional dos tempos modernos, mas, aqueles que foram, são e serão nossos amigos, esses que ficam com os quais podemos cantar , “amigos para sempre...
Tenho amigos que estão comigo há várias primaveras, acompanharam e fizeram sombra no meu verão e hoje, no outono da vida quando preciso de uma bengala ou um muro para as lamentações,  lá estão eles esquecidos das suas dores para espalharem bálsamo  sobre as minhas.
Por tudo que a vida nos oferece ela deve ser vivida com dignidade até o fim. A família, bem perto acompanha o nosso ir, enquanto a saudade vai compondo nosso comboio. As crianças, que dormiram numa mesma cama com os pais, cresceram e se foram para outras camas. Outras contra a própria vontade se ausentaram dos pais, como no caso de Caetano Veloso que a perversa ditadura o manteve fora do país longe de Dona Canô,  por um bom tempo,
Tempo em que a Claudionor Viana Teles Velloso, nascida em Santo Amaro Da Purificação, a 16 de Setembro de 1907,  católica , procurou Mãe Menininha do Gantois,  pedindo proteção para o filho exilado.
Dona Canô,  mulher independente se projetaria em qualquer situação que a vida se lhe apresentasse, mas, quis  Oxalá , o  Orixá da paz, que ela fosse a mãe de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros seis filhos.,certamente  pediu proteção e que ele voltasse, e  ele voltou. Dona Canô pagou a conta com muito respeito, mas nunca deixou de ser católica.
  A vida é bela porque mesmo momentos assim se transformam em suave saudade. Todos nós temos nossos bons momentos, e com um pouco de sabedoria não deixamos os maus criarem raízes.
Chega um tempo em que a locomotiva não sai mais do abrigo, o carvão acabou .  D.Canõ puxou seus vagões até o último carvão.  As saudades que ela armazenou, ocupará o espaço deixado por essa sábia mulher.
Mas sem dúvida a partida deve ser o mais difícil momento das nossas vidas. É este o grande exemplo que a matriarca dos Veloso nos deixa. Seja a guardiã da tua família, assim terá o respeito de teus filhos até o fim.
Dona Canô a mulher que interferia na vida política, religiosa e cultural de Santo Amaro da Purificação, morreu no dia 25 de Dezembro de 2012, data escolhida para comemorar o aniversário do Menino Jesus.
Não sei como é o depois, mas talvez Dona Canô tenha ido cumprimentar o Menino!

Emília Goulart