Emília Goulart

Minha foto
Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Devagar se vai longe

                       
                                                 Devagar se vai longe


D. Canô foi longe, eu também quero ir. Sigo Nilo Amaro pela cantiga afora: “ leva eu minha sodade... quando chego na ladeira tenho medo de cair”.
Nesta hora a gente quer ficar, a não ser que uma dor maior que a saudade nos faça desistir da vida. Se eu continuar viva até onde chegou a Dona Canô eu levarei muita saudade. Porque saudade é como erva daninha, brota todo dia no coração da gente.
A vida é muito bela, desprezá-la como coisa comum que pode acabar a qualquer momento não é sabedoria. Canô tinha respeito pela vida e soube cuidar da sua muito bem.
 Minha vida eu trago como pipa na linha, deixo-a flutuar entre nuvens, recolho-a se o tempo muda e percebo chuva, não a expondo sob-raios e trovoadas. Não sei se temos o controle da vida nas mãos, por isso não embarco na velocidade do tempo. Quero ir é devagar, devagarinho...
 Sei que o tempo é voraz,  consome dias, meses e anos com tanta rapidez que não nos damos conta e quando notamos estamos idosos.
A vida é uma locomotiva que passa por nós engatando vagões de saudade. Qualquer dia ela pode nos recolher.
Os amigos, alguns flutuantes e outros ficantes. Não este ficar ocasional dos tempos modernos, mas, aqueles que foram, são e serão nossos amigos, esses que ficam com os quais podemos cantar , “amigos para sempre...
Tenho amigos que estão comigo há várias primaveras, acompanharam e fizeram sombra no meu verão e hoje, no outono da vida quando preciso de uma bengala ou um muro para as lamentações,  lá estão eles esquecidos das suas dores para espalharem bálsamo  sobre as minhas.
Por tudo que a vida nos oferece ela deve ser vivida com dignidade até o fim. A família, bem perto acompanha o nosso ir, enquanto a saudade vai compondo nosso comboio. As crianças, que dormiram numa mesma cama com os pais, cresceram e se foram para outras camas. Outras contra a própria vontade se ausentaram dos pais, como no caso de Caetano Veloso que a perversa ditadura o manteve fora do país longe de Dona Canô,  por um bom tempo,
Tempo em que a Claudionor Viana Teles Velloso, nascida em Santo Amaro Da Purificação, a 16 de Setembro de 1907,  católica , procurou Mãe Menininha do Gantois,  pedindo proteção para o filho exilado.
Dona Canô,  mulher independente se projetaria em qualquer situação que a vida se lhe apresentasse, mas, quis  Oxalá , o  Orixá da paz, que ela fosse a mãe de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros seis filhos.,certamente  pediu proteção e que ele voltasse, e  ele voltou. Dona Canô pagou a conta com muito respeito, mas nunca deixou de ser católica.
  A vida é bela porque mesmo momentos assim se transformam em suave saudade. Todos nós temos nossos bons momentos, e com um pouco de sabedoria não deixamos os maus criarem raízes.
Chega um tempo em que a locomotiva não sai mais do abrigo, o carvão acabou .  D.Canõ puxou seus vagões até o último carvão.  As saudades que ela armazenou, ocupará o espaço deixado por essa sábia mulher.
Mas sem dúvida a partida deve ser o mais difícil momento das nossas vidas. É este o grande exemplo que a matriarca dos Veloso nos deixa. Seja a guardiã da tua família, assim terá o respeito de teus filhos até o fim.
Dona Canô a mulher que interferia na vida política, religiosa e cultural de Santo Amaro da Purificação, morreu no dia 25 de Dezembro de 2012, data escolhida para comemorar o aniversário do Menino Jesus.
Não sei como é o depois, mas talvez Dona Canô tenha ido cumprimentar o Menino!

Emília Goulart

2 comentários:

  1. Eita, mas que coisa mais bela que eu estou vendo por aqui!
    Satisfeita por saber que está retornando à sua página virtual. Isso é muito bom, Emília!

    Agora presenteia-nos sempre com os seus textos, poemas, todos cheios de sabedoria e ensinamentos. Adoro os seus textos, e quero que saiba que você tem muitos leitores, admiradores, viu!

    ResponderExcluir
  2. Bela e sensível homenagem à Dona Canô, mãe - na minha modesta opinião - do maior gênio que esse país produziu. Agradeço, Emilia, sua visita ao meu espaço. E deixo meus parabéns pelo seu. Abraços.

    ResponderExcluir