Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

UM URSO À MINHA MESA


                     

 


 Ali existe um muro. Quando digo isso, as pessoas riem, zombam de mim.

— É! De fato, ali existe um muro — repetem.

 Elas têm razão, evito discutir, elas falam daquele que quase todas as casas têm. O muro do fundo, que as separam dos vizinhos, de concreto. 

O que elas não entendem é que além daquele tem outro. Não sei mais o que faço, aquele muro me atrai. Estou sempre sobre o muro de concreto observando-o. Apesar de invisível, ele também é concreto.

Outro dia, estando sozinho, fui provar a mim mesmo que o muro invisível existe. Saltei para o outro lado e lá estava ele, toquei-o, queria ter a certeza de que não era uma alucinação. Cheguei mesmo a tentar, de um modo súbito, arrancar um pedacinho de concreto e logo senti uma pressão, os dois muros foram se juntando, comprimindo, concreto e abstrato se fundiram. Senti que eles se abraçavam e eu ali, imóvel entre aquele abraço, me senti filho acolhido, protegido, porém, proteção em exagero sufoca. Abaixei para me livrar daquele abraço antes de ser transformado em fragmentos. Meu maior receio no momento foi ser transformado em um terceiro muro. Enquanto os muros, no mais absoluto silêncio, trocavam insultos. Ninguém os podia ouvir. Eu sim!

Mesmo sentindo as minhas pernas trêmulas, saltei novamente o muro. Estava livre, nunca meu quintal me pareceu tão grande. Naquele momento jurei que não tornaria a provocar aquela situação. Afinal, o que era aquilo? Nunca ouvi falar de algo igual, qualquer semelhança com fantasmas estava fora de cogitação. Fantasmas são intocáveis, eu o toquei. Foi isso, eu toquei aquele muro, eu senti a frieza mórbida daquela estrutura invisível oculta por trás de um muro sólido.

 Fui bem discreto, apesar do medo que me afligia, imediatamente percebi que aquele era um segredo entre mim e os muros.   Revelar estava fora dos planos, seria, sem dúvida, tomado por louco, quem sabe até me internariam em um sanatório.

Todavia, conviver com aquilo seria difícil, não é o tipo de coisa que dá para ignorar, teria que enfrentar a situação e voltar lá, querendo ou não, aqueles muros faziam parte da minha vida, afinal nasci naquela casa. Desvendar aquele mistério era um desafio que eu precisava enfrentar.

Depois de algumas horas entre subidas e descidas do muro de concreto, observando detalhadamente o muro invisível, que me convidava a entrar por uma porta estranha de sorriso enigmático, não se abrindo totalmente, apenas o suficiente para que um lenço branco se mostrasse. Tive certeza, precisava voltar, mas faltava-me coragem. Decidi:

Convidei meu irmão, relutante a princípio, desconfiando da historia, mas em solidariedade ao irmão mais novo, acabou aceitando o convite. Difícil mesmo para ele era entender como e quando surgiu aquele outro muro, longe da vista dos moradores e tão próximos. Eu já passara pela fase das indagações e não lhe dava ouvidos.

Tornei a saltar o muro, desta vez acompanhado pelo meu irmão. Acompanhado não é bem o termo certo, na verdade ele foi sequestrado por mim, pois usei segredos que só irmãos conhecem para chantageá-lo e forçá-lo a embarcar naquela aventura. Pressenti o perigo ao ver Diogo, meu irmão, tatear a procura do muro invisível.  Tão poucas vezes estive ali e já era o dono da situação. Guardava dele um dos seus segredos, se tocado ele reagiria.

 Tarde demais para avisar, já havíamos penetrado o território invisível daquele mistério que nos convidava, arrastando-nos.  Nesse momento, duas mãos surgiram, estavam geladas e trêmulas, nada de estranho para mim, pois dentro daqueles muros revestidos de cimento, não poderia ser diferente. As mãos começaram a nos afagar e logo nos vimos diante de nossa mãe que estava desaparecida. Mesmo feliz com o reencontro não foi possível conter o comentário uníssono:

—Isto quer dizer que ficaremos aqui muitos anos.

—A eternidade? — perguntou Diogo.

O incrédulo, que até bem poucos minutos não se manifestara.

— O que é a eternidade? — balbuciou o muro.

Segurei forte, afastando de mim as mãos que me acariciavam:

— Agora quero saber, que historia é essa?  Vai me deixar passar por louco, ou vai nos explicar?—Ela soltou minhas mãos, senti-me aliviado:

—Assim como vocês, estou aqui por curiosidade. Desde que seu pai levantou este muro eu tentava entender o porquê, e acabei aqui dentro. Talvez ele me tivesse tirado, mas, como logo depois ele morreu. A certeza de que me libertaria desapareceu. A única coisa que eu sei foi revelada pelo próprio muro, que a me ver mergulhada em grande tristeza disse:

— Um outro tem que entrar para que você saia. Vou me tornar visível para o seu filho mais jovem e assim atraí-lo.

O muro, tomando a palavra disse:

— Não contava que entrassem os dois. Agora ficarão, para que ela saia. Muros invisíveis cumprem o que prometem.

Tranquilizou-nos a promessa de que ela olharia como estava a casa e voltaria.

Por algum tempo ficamos imóveis, depois começamos a nos desesperar.  A cada minuto a certeza de que ela não voltaria nos apavorava, e toda vez que tentávamos sair, luzes cadentes como estrelas iluminavam o interior do muro possibilitando-nos enxergarmos várias portas sem que nenhuma delas nos indicasse a saída.

Nunca fui assombrado por portas que se abrem e fecham sem nenhum auxilio, vi muitas, mas estas eram especiais, um vai e vem sem fim, e quando batiam o eco se tornava insuportável e o muro invisível, que se tornou o nosso casulo, estremecia.

Por um bom tempo paramos as tentativas, ficamos inertes, qualquer investida para tentarmos escapar dali era um suplício. Estávamos enjaulados, ou melhor, emparedados.

Diogo balançava a cabeça de um lado para outro, e foi assim que ganhou todas as características de urso. Do meu irmão restavam  a voz e o firme propósito de sair dali.

Tentamos juntos, muitas vezes, a cada tentativa meu irmão se tornava mais urso. Eu fui o responsável por aquela metamorfose, ver meu irmão se transformando foi assustador. Comecei a temer a hora em que o urso cansado e com fome me devorasse.

As luzes voltaram a piscar, saltei para fora pela primeira porta que surgiu, mas entre aquele vai e vem fiquei preso por alguns segundos ou minutos, o tempo já não importa quando a eternidade se prenuncia assustadora. Senti o urso rasgando minha roupa, suas garras ferindo minha pele na tentativa de me segurar, seguir comigo ou me devorar, pois eu era o único alimento à vista.

Alguém me viu debatendo e socorreu-me, puxando.

—O que você estava fazendo do lado do vizinho?

Calei-me, há coisas que não adianta contar, eles jamais vão acreditar que o Diogo está dentro do muro invisível e que agora é um urso. Falei com mamãe que precisávamos tirar o Diogo de lá. Ela disse que não acha isso possível, pois papai morreu sem revelar o segredo.

Eu sei como entrar e como sair do muro, mas, como tirar um urso de lá eu não sei.

Mamãe arrumou uma coleira enorme, me entregou e disse:

— Não temos escolha, boa sorte.

Tirá-lo do muro até que não foi difícil, mas como explicar um urso que senta e come conosco à mesa?

 

 

Emília Goulart é membro da UBE e Academia Araçatubense de Letras

 

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