Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Velhice Sem Traumas
Relutamos muito em assumir nossas dores, melancolias, saudades e tentamos passar às outras pessoas uma juventude que não nos veste bem. Nosso inabilidade com a nova tecnologia que nos afrontam com seus números botões, zombadores da nossa imperícia em manipulá-los. Atestam a velhice que negamos.

 Inoportuna ou não, a velhice chega e precisamos aceitá-la. Não sabemos por quanto tempo conviveremos, espero fazer uma longa amizade com minha velhice, tentarei me ajudar mais, reclamar menos, ser no mínimo suportável ao próximo. Eliminar todo ranço do passado. Do meu álbum quero rasgar as páginas que revelaram magoas e colorir de novo as que  registraram felicidade.  Se você como eu se acomodou no engodo de que a vida começa aos quarenta e já chegou aos setenta está na hora de rever seus conceitos, pois continuar pousando de mocinho ou mocinha começa a ficar ridículo. Ao se deparar com a minha sinceridade talvez me considere uma “grossa”, contudo não se ofenda, é assim mesmo. Começamos por discordar de tudo. Formulamos nossos pensamentos e não aceitamos críticas. É preciso mudar a velha opinião formada: “ao velho tudo pode, tudo é permitido desculpável e uma gracinha”.
 Casais namorando logo pela manhã é uma desgraceira no nosso dia. Tudo que fizemos e não fazemos mais vem cutucar nossos sessenta, setenta anos ou mais. Vamos envelhecer com sabedoria.  Vestidinhos e shortinhos curtos são para as meninas, ainda assim se tiverem pernas bonitas.  A discrição é irmã gêmea da elegância.
Nossa! Eu não pretendia escrever isso, mas não trapaceio com minha linha de raciocínio. Preciso aprender muito para ter uma velhice tranqüila sem me tornar um peso, nem uma vergonha para meus filhos.
 Uma velha amiga me disse isso a vinte anos atrás:
—Tenho prestado muita atenção na mamãe para não repetir os mesmos erros, não a repreendo ela não faz por maldade, apenas não viu o tempo passar.
Realmente não é preciso que nos lembre que estamos velhos. Nós sabemos e sentimos. Mas, por favor, nos avise quando o batom vermelho for usado em ecesso.
 Abriguei-me na minha velhice e estou feliz. Com ela vi chegar a calmaria. O tempo de mar agitado cessou. Vi a maré baixar mansamente. No inicio um temor de ser arrastada por ela, mas aos poucos descobri que ainda tinha forças para pular pequenas ondas. Não me atrevo mais a enfrentar ressacas, respeito o limite dos setenta.
Meu sonho não foi conhecer o mundo, cultivei ambições maiores e desafiadoras. Sempre que a ocasião permite, convido algumas amigas e partimos em buscas de grandes aventuras.  Nossos encontros acontecem na caverna do passado. Lá abrimos nossos baús empanturrados de memórias. Algumas secretas outras indiscretas. No silêncio da caverna, saltam sobre nós teias que nos entrelaçam com afeto. Um suplemento de ternura nos é servido em taças de amores vividos. Sobre a mesa, gasta pelo tempo, abrimos um mapa e revisitamos lugares, onde nos decepcionamos em alguns e fomos felizes em outros.
Não conseguimos apagar nossos rastros. Deixamos a areia, a poeira e as marcas de outros passos se encarregarem de apagá-los.
A  qualquer dia o velho mapa do baú será novamente visitado com o mesmo espírito de aventura a nos perturbar. Estou amando a minha velhice. Não preciso mais subir longas escadarias para tentar alcançar o infinito. Ele se aproxima sem que eu precise fazer nenhum esforço. Estou determinada a seguir a orientação do tempo, ele se perderá da vista a qualquer momento, então vou aonde já conheço que me cansa menos.
Acerco-me de pessoas que conhecem o mundo, elas gostam de contar suas viagens, eu usufruo sem custo ou cansaço. Estreito meus laços de amizade com meus ouvidos atentos e meu eu maravilhado.
Gosto de ouvir o barulho do mar, mas, não precisa ser o do Caribe. Também não preciso mais chegar ao topo do universo. Esperarei com tranqüilidade ser conduzida por Ele.
Emília Goulart