Emília Goulart

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Araçatuba, São Paulo, Brazil
Escritora,poetisa, contista,cronista, romancista, artista plástica. Costureira da arte.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Tempo Perdido


Estou relendo meus velhos textos, alguns achei que merecem um lugar no meu Blog. Espero que gostem da seleção que separei para postar aqui toda quinta-feira.
                                                     Tempo Perdido
Perdemos tanto tempo, da nossa curta existência, com pressentimentos e ressentimentos tolos. Caso isto te lembre alguma letra de música, pode estar certo você não se enganou.  Hoje acordei com aquela música tão bem interpretada pela cantora Vanusa e também fui vasculhar minhas gavetas. Não perdi nada, mas guardei muita coisa que poderia bem ter jogado fora.  Pequenas magoas, alguns desenganos guardados por tanto tempo que não fazem mais sentido e apenas atormentam lembranças das  velhas amizades. Como podemos ser tão cruéis?  Já não nos lembramos direito os motivos que nos afastaram, mas evitamos caminhar pela mesma calçada. Certamente você também tem algum comentário, ofensa ou magoa guardados por ressentimentos tolos.
Disposta a mudar atitudes que não me servem mais, pensei no tempo que Deus nos dá a partir dos sessenta anos. Acredito que Ele comece a perdoar alguns dos nossos velhos pecados. Penso assim por sentir que minha alma tem ficado mais leve. Antes eu carregava muitas magoas e achava que a vida só fazia sentido se fosse dente por dente, olho por olho. Hoje tenho motivos para acreditar que Deus arrancou algumas páginas do meu livro. Não que eu as tenha esquecido, mas chego a achar graça de tantos absurdos cometidos por vaidade e imaturidade.
Não fui justa quando acusei minha melhor amiguinha de ter quebrado minha boneca de estimação. Ela apanhou e eu fiquei feliz pensando, bem feito! Coisa pequena quando se é criança, Deus só pode ter perdoado mesmo sem o meu pedido de desculpa depois que o verdadeiro culpado se confessou.
Mas em dias preguiçosos assim como foi 25-10-2016 quando a chuva deu uma refrescada nos ânimos, tento me alimentar de otimismo para aliviar os dias desgastantes que nos importuna com a agenda política do país que extrapolam em noticiários sem apresentar nenhuma solução digna e humana a população.
Recuperar parte do perdido, não significa que devolveram ao povo o que nos foi tirado.
Bons tempos aquele da carroça. E você com certeza ira pensar.
Quem precisa dele agora? O que precisamos é de agilidade.
Com toda razão pode me contestar, mas prefiro as contestações que enlouquecer com a injustiça que assola meu país. Meu refúgio é o meu passado. Vou lá para a casa dos meus pais e meus avós, eles plantaram a paz que eu ainda trago na memória.
Abrir a porta em dias de chuva e ver os cavalos galopando no pasto. O tio vestido com sua capa grossa de montaria caminhando para o curral, o pai esperando a chuva afinar para sair à procura de reses para comprar e montar uma boiada. E meu avô que da uma volta pelo quintal e decreta:
—Hoje não dá para capinar. 
Depois com um sorriso largo olhava para mim e dizia:
—Então vamos colher minha neta.  
Passeios bons, sempre com recomendações da minha mãe e minha avó:
— Não vão longe! A chuva pode engrossar.
Embornal carregado de abobrinhas voltávamos felizes. Não sem antes colher e comer um marmelo que dava na pontinha da vara.
A vara, o vovô cortava e levava para a vovó. Era usada para ameaçar, mas nunca para ferir.
Hoje são tantas as noticias que nos entristecem: violência, acidentes, crianças molestadas e mortas na maioria das vezes pela própria família.  Esses fatos me levam a perguntar: Que famílias são essas? Que escassez de bons sentimentos sobreveio ao mundo comprometendo o futuro da humanidade?
Emília Goulart

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Borboletas Carpideiras

Velhice Sem Traumas


                                                            









                                                               Velhice Sem Traumas

Relutamos muito em assumir nossas dores, melancolias, saudades e tentamos passar às outras pessoas uma juventude que não nos veste bem. Nosso inabilidade com a nova tecnologia que nos afrontam com seus números botões, zombadores da nossa imperícia em manipulá-los. Atestam a velhice que negamos.
 Inoportuna ou não, a velhice chega e precisamos aceitá-la. Não sabemos por quanto tempo conviveremos, espero fazer uma longa amizade com minha velhice, tentarei me ajudar mais, reclamar menos, ser no mínimo suportável ao próximo. Eliminar todo ranço do passado. Do meu álbum quero rasgar as páginas que revelaram magoas e colorir de novo as que  registraram felicidade.  Se você como eu se acomodou no engodo de que a vida começa aos quarenta e já chegou aos setenta está na hora de rever seus conceitos, pois continuar pousando de mocinho ou mocinha começa a ficar ridículo. Ao se deparar com a minha sinceridade talvez me considere uma “grossa”, contudo não se ofenda, é assim mesmo. Começamos por discordar de tudo. Formulamos nossos pensamentos e não aceitamos críticas. É preciso mudar a velha opinião formada: “ao velho tudo pode, tudo é permitido desculpável e uma gracinha”.
                                            
 Casais namorando logo pela manhã é uma desgraceira no nosso dia. Tudo que fizemos e não fazemos mais vem cutucar nossos sessenta, setenta anos ou mais. Vamos envelhecer com sabedoria.  Vestidinhos e shortinhos curtos são para as meninas, ainda assim se tiverem pernas bonitas.  A discrição é irmã gêmea da elegância.
Nossa! Eu não pretendia escrever isso, mas não trapaceio com minha linha de raciocínio. Preciso aprender muito para ter uma velhice tranquila sem me tornar um peso, nem uma vergonha para meus filhos.
 Uma velha amiga me disse isso a vinte anos atrás:
—Tenho prestado muita atenção na mamãe para não repetir os mesmos erros, não a repreendo ela não faz por maldade, apenas não viu o tempo passar.
Realmente não é preciso que nos lembre que estamos velhos. Nós sabemos e sentimos. Mas, por favor, nos avise quando o batom vermelho for usado em excesso.
 Abriguei-me na minha velhice e estou feliz. Com ela vi chegar a calmaria. O tempo de mar agitado cessou. Vi a maré baixar mansamente. No inicio um temor de ser arrastada por ela, mas aos poucos descobri que ainda tinha forças para pular pequenas ondas. Não me atrevo mais a enfrentar ressacas, respeito o limite dos setenta.
Meu sonho não foi conhecer o mundo, cultivei ambições maiores e desafiadoras. Sempre que a ocasião permite, convido algumas amigas e partimos em buscas de grandes aventuras.  Nossos encontros acontecem na caverna do passado. Lá abrimos nossos baús empanturrados de memórias. Algumas secretas outras indiscretas. No silêncio da caverna, saltam sobre nós teias que nos entrelaçam com afeto. Um suplemento de ternura nos é servido em taças de amores vividos. Sobre a mesa, gasta pelo tempo, abrimos um mapa e revisitamos lugares, onde nos decepcionamos em alguns e fomos felizes em outros.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

 Para hoje um pensamento.

A necessidade é a mãe do nosso destino.
Mas a prudência nos recomenda ser surdos
aos apelos da necessidade.
Emília Goulart

sábado, 16 de dezembro de 2017

Amigos e Gratidão

                                                   



                                                           




                                                           
 Amigos e Gratidão
Amigos palavra bonita cultivada por pessoas que se querem bem. Gratidão  a palavra que eterniza uma amizade.  O amigo capaz de despertar um sentimento de gratidão, jamais será esquecido. Tenho muitos amigos e lembranças boas, alegres, que vieram ao meu encontro quando pensei neste tema.
Mas todos nós sabemos reconhecer o verdadeiro amigo? Tenho a impressão que as pessoas esperam muito umas das outras e guardam pequenas mágoas e rancores com muita facilidade. Há amigos verdadeiros, e os eternos amigos. Tenho todos como amigos queridos, mas alguns estiveram tão presentes em momentos difíceis que se tornaram eternos. Não importa o tempo que passou, vou lembra-las com carinho. Ao olhar para traz ainda sinto a importância de algumas amizades na minha vida. Elas me mostraram que no mundo tem pessoas boas, que fazem a diferença.
Pessoas, a quem sou imensamente grata que me acudiram e
tornaram mais suaves o meu caminho.
Aos quinze anos perdi minha mãe, sem irmãos fui acolhida por minhas tias e a parentada toda. Um pouco da dor e muito da falta, se diluiu no conforto dos braços que me confortaram e nos carinhos das tias, mães emprestadas por meus primos e primas.
Logo depois conheci uma pessoa que veio de Jaú e nos tornamos amigas, foram inúmeros os momentos em que Sueli me protegeu, apontou perigos e os buracos nos quais eu estava me metendo. Meus maiores defeitos ela foi aparando. Minha incompreensão com meu pai foi um deles. Muitas vezes fui tola e ingrata dizendo que não se metesse em minha vida. Mas era para ela que eu corria com minhas decepções.
Livrou-me de cometer erros para os quais arrependimentos são tardios. Deus a levou muito cedo talvez eu não tenha merecido um anjo da guarda assim tão presente. Obrigada amiga por ter estado do meu lado durante os oito anos mais difíceis da minha vida. Aqueles anos quando a juventude nos aponta caminhos que nos parece fáceis.
Outros amigos que a gratidão não me deixa esquecer Dona Ruth e o Senhor Pedro dos Santos. Morávamos em uma das suas casas, tudo ia bem, até meu marido ficar desempregado, quatro filhos para alimentar, água e luz para pagar além dos aluguéis que se acumulavam.  O que eu recebia como revendedora de produtos de beleza não dava para todas as despesas. Nunca fui coagida ou ameaçada de ficar na rua com meus filhos por este casal.  Os amigos estão bem menos tolerantes. Ninguém tem tempo para te ouvir. O mundo virtual se ocupa das banalidades e diante de necessidades reais eles curtem.
Eu estive lá, onde a miséria bate na porta sem saber se amanhã ainda haverá uma porta. Lutei, venci e hoje ao ver pessoas desempregadas batendo em portas sem conseguir tratamento para suas dores. Os planos de saúde se recusando a atender seus associados e o sistema de saúde pública, falido. Sim, falido e não temos nenhuma assistência jurídica ou política preocupada com isso. Sabe-se que continuamos a pagar pelos crimes de colarinhos brancos.
Esses falsos hipócritas e enganadores que parece estar presos, mas as condições de prisioneiros não entram em suas selas. Suas famílias frequentam os mesmos lugares e colégios, afastados dos seus cargos não ficam sem receber.  Nós os imbecis os pagamos através dos impostos.
Quando retorno ao passado para comparações de um tempo, tenho minhas razões, não tínhamos salário desemprego nem décimo terceiro. Quando meu marido  voltou a trabalhar, peguei seu primeiro salário e fui pagar os aluguéis atrasados. E mais uma vez eu não saberia o que ia fazer para as crianças comerem no dia seguinte, pois eu vinha prometendo que pagaria o aluguel atrasado.  Descobri que a amizade deles por nos era bem maior. Eles separaram a metade e disseram que aos poucos eu iria pagando o resto. Há tempos eu não fazia uma compra para minha casa, ficamos muito felizes.
Como eu disse tenho muitos amigos especiais, mas a gratidão faz algumas amizades eternas. A humanidade precisa voltar a ser humana e menos irracional.


Emília Goulart

Novamente é Natal

                                                

                              




                            Novamente é Natal



Novamente, é Natal! Nossas expectativas mudaram. Os anos vão passando e eu vou me tornando mais exigente. Já não me satisfaço com presentes materiais e não me alegro de promessas vãs que nunca são cumpridas.
         Não quero nada que no natal seguinte esteja velho, esquecido em um canto qualquer ou obsoleto. Quero algo que me alimente de lembranças boas. Quero o seu sorriso, ou até uma gargalhada escandalosa para alegrar minha vida. Quero doces palavras para dar sabor aos meus dias. Algumas lágrimas temperadas de alegria, para lembrar-me de que ainda estou viva, contrariando as estimativas de vida para quem nasceu nos anos quarenta. Quero um abraço apertado que não deixe soltas as pontas dos laços de amizade. Abraços nos unem e matam saudades. Ainda que isto nos pareça impossível, o abraço leva mensagens do nosso bem querer onde não conseguimos alcançar.
 No Ano que se aproxima quero mais respeito com nosso planeta. Menos poluentes e agrotóxicos. Mais comprometimento dos humanos com a flora e a fauna. Vamos plantar a certeza de que estamos preparando um mundo melhor para todos. Que o amor e o respeito não sejam delimitados pela cor, raça, religião, condição financeira ou opção sexual. Vamos respeitar as diferenças, ser compreensivo e tolerante com as limitações do próximo.
Vamos fazer calar nosso orgulho e preconceito. Aprender a dividir com os menos favorecidos e deixar de arrogância diante dos fracos e oprimidos.
Quero ver e ouvir orquestras e bandas tocando nas praças e nas favelas, substituindo sons de tiroteios. Que as crianças possam brincar alegres pelas ruas, sem que balas perdidas as alcance. Que os anseios de voltar para casa nunca terminem em pesadelos.
 Parabéns, paz e saúde aos trabalhadores humildes que dividem os mesmos trinta mil reais, que a ministra desvaloriza, por várias famílias e sobrevivem com honestidade. Desejo um ano bem melhor para todos os alunos que alimentam o sonho de uma vida digna, embora nossos governantes  nada façam, nem mesmo para proporcionar o convívio pacífico e seguro no ambiente escolar. Muitas vezes ordenando a volta para suas casas, atendendo ordens do comando do tráfico para fechar as portas das escolas. Parece que rasgaram o estatuto da infância e da juventude. Os Direitos Humanos montou sede nas portas das prisões para melhor dar voz e segurança aos bandidos, enquanto a população sofre as consequências.
 As crianças estão desassistidas. Os idosos que tanto contribuíram com a previdência perambulam ao léu em busca de assistência.
Que a nossa teimosia nos permita vida longa para sairmos às ruas e gritar contra as injustiças.
– Não, não somos os culpados pelos desfalques, corrupções e empréstimos feitos à revelia dos contribuintes. Onde está o dinheiro pago em altos impostos? Vamos levantar um sonoro “bate o sino”. O INSS teria dinheiro suficiente, não fosse no passado, contribuinte compulsório das usinas hidrelétricas. Não fosse o cofre aberto para socorrer o governo em atos nada condizentes com o proposto pelo Instituto Nacional do Seguro Social.
Agora levantaram que há outro culpado pela escassez de recursos. São as mães que deixaram de ser as parideiras do sustentáculo da roubalheira.
Desejo que os Reis Magos nos visitem e tragam honra aos poderes e poderosos. Dignidade e sabedoria ao povo brasileiro para escolher seus governantes e cobrar com ânimo os nossos direitos. Somos um povo calmo e esperançoso.  Meu pai sempre pregou paciência e esperança, faleceu em1979, ainda na era do INPS. Ele dizia: quando o povo perde a paciência, e vê a esperança minguar, não há poder que o detenha. 
Não queremos nada além dos nossos direitos: saúde, segurança, educação e ver o Brasil livre dos corruptos.
 Se a ordem e progresso não convivem bem, nos devolvam a ordem, que o progresso será alcançado por esse povo tantas vezes ultrajado.

 Emília Goulart